O realizador Miguel Gomes lamentou esta quarta-feira a morte de Fernando Lopes, considerando-o uma «figura seminal» por ter começado, há cinquenta anos, a fazer aquilo que convencionou chamar-se Cinema Novo Português.
O realizador de «Tabu», recém-premiado com o Prémio da Crítica do Festival de Cinema de Berlim, reagia assim à agência Lusa à morte de Fernando Lopes, autor de filmes como ¿Berlarmino¿, que morreu hoje aos 76 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde estava hospitalizado.
«Fernando Lopes era, com Paulo Rocha [realizador de «Verdes Anos»], uma figura seminal», disse o realizador à agência Lusa.
«O Fernando era alguém de quem eu era muito cúmplice ¿ morava ao pé de mim ¿ e, portanto, nos últimos anos, tive o privilégio de o encontrar muitas vezes e passar várias horas a falar com ele sobre cinema, sobre a vida, e sempre impressionado por aquilo que acho que era talvez a maior qualidade do Fernando Lopes, enquanto pessoa, mas também como cineasta, que era uma disponibilidade e uma generosidade na forma de olhar o mundo e as outras pessoas», sublinhou Miguel Gomes.
Para o realizador de «Aquele querido mês de Agosto», os filmes de Fernando Lopes tinham sempre «qualquer coisa de projeção da própria personalidade» do realizador, tanto nas personagens que foi criando, como nas pessoas que foi filmando, apesar de muitas das obras de Fernando Lopes serem adaptações de obras de escritores, como de Carlos de Oliveira e José Cardoso Pires, referiu.
«Ele adaptou uma série de autores mas havia sempre qualquer coisa que vinha da personalidade dele, do sentido de humor dele e dessa tal generosidade com que olhava as pessoas», frisou Miguel Lopes, acrescentando que o realizador «nunca julgava as personagens nos filmes, mesmo que estas mostrassem as suas limitações ou procedessem mal».
«O Fernando, o cinema do Fernando [Lopes] não estava lá para julgar, e acho que isso vem precisamente desse lado da personalidade dele que era tão generosa e tão cúmplice com as outras pessoas», concluiu Miguel Gomes.