Um desabafo do ator espanhol Javier Bardem sobre o Sara Ocidental e a violação de Direitos Humanos naquele território provocou um conflito diplomático entre Marrocos e França. O Presidente francês, François Hollande, já falou com o rei de Marrocos, Mohammed VI.

Na capital francesa, durante a apresentação do documentário de que foi produtor, precisamente sobre a violação de Direitos Humanos no Sara Ocidental e os seus refugiados, intitulado «Hijos de las Nubes, la Última Colonia» («Filhos das Nuvens, a Última Colónia», em português), Bardem cometeu uma inconfidência.

O ator contou que, em 2011, «o embaixador francês nas Nações Unidas, Gérard Araud», lhe disse, em privado, o que significava Marrocos para França. «É uma amante com quem se dorme todas as noites, de quem não se está particularmente apaixonado, mas temos que a defender. Por outras palavras, olhamos para o lado», afirmou Javier Bardem, citado pelo jornal francês «Le Monde».

Mas o defensor dos sarauis não deixou de criticar as autoridades marroquinas e francesas: «Marrocos está numa situação de constante violação dos Direitos do Homem. Ora, a França é um país pioneiro em matéria de liberdades. Estamos perante algo que não é lógico nem aceitável.»

Protestos em Rabat

Depois das palavras do ator de «Este País Não é Para Velhos», as reações não se fizeram esperar. O ministro marroquino das Comunicações, Mustapha Khalfi, pediu de imediato explicações a Paris, exigindo saber se o que foi dito por Javier Bardem sobre o embaixador francês «é verdadeiro ou falso». Considerou a situação «inaceitável» e «um golpe para todos os marroquinos», cita o diário espanhol «El País». Na capital marroquina, Rabat, registaram-se manifestações junto à embaixada francesa.

Por outro lado, o Presidente François Hollande telefonou ao rei Mohammed VI. Não foram revelados pormenores da conversa, apenas foi dito que ambos concordaram em «trabalhar no espírito das relações excecionais que unem Marrocos e França».

Bardem disse nesta quarta-feira ao «El País» que é importante pôr as pessoas a falar da situação que se vive no Sara Ocidental. «No ano passado, França e Espanha opuseram-se a uma iniciativa histórica dos Estados Unidos, para pôr em prática um mecanismo de supervisão de Direitos Humanos no Sara. A missão Minurso [da ONU] vai ser renovada em Abril e a única coisa importante é debater esta questão», afirmou o ator.

Referendo esquecido

O Sara Ocidental foi uma colónia espanhola até 1975. Quando Madrid deixou de controlar aquele território africano, Marrocos invadiu-o, alegando direitos históricos. Como resposta, o povo saraui, que procura a independência, avançou então com a Frente Polisário e a criação da República Árabe Saraui Democrática - com um Governo no exílio.

Uma missão das Nações Unidas visitou, já em 1987, aquela região, com o objetivo de avaliar a possibilidade de realização de um referendo sobre o futuro do território, sendo que a consulta popular nunca avançou. Na ONU, o Sara Ocidental continua com o estatuto de território não autónomo.