Dois mil e quinhentos euros, muita «criatividade e motivação» são o enredo para levar «Deus Providenciará» a concurso nas curtas-metragens do festival de cinema de Cannes, num trabalho que explora os efeitos do isolamento em Portugal, escreve a agência Lusa.

«Abandonar populações inteiras no interior do país privando-as de serviços de saúde e educação é o primeiro passo para o abismo, sacrificando-se o futuro. Um cancro que se espalha pelo país. Decisões de vida ou morte que, pela sua complexidade, têm se ser feitas tendo em conta vários fatores, sendo o dinheiro apenas um deles», explica à Lusa Jaime Monsanto, argumentista e ator na produção da Frame.

Maria (Isabel Abreu), médico (Jaime Monsanto), padre (Pedro Manana) e radialista (António Durães) são os quatro personagens da curta que vai arrancar com 2.500 euros, mas espera reunir, em sistema de crowdfunding ( deusprovidenciara.wordpress.com), 40.000 de forma a produzir «um trabalho de grande qualidade técnica, aportando mais realidade à mensagem».

«Quanto mais dinheiro angariarmos, mais qualidade técnica conseguimos trazer ao filme e será ainda mais possível fazermos um trabalho de grande qualidade. Este é um tema ao qual urge dar atenção e voz. E não é só no Natal. Acreditamos que podemos ser notados em Cannes», perspetiva o jovem realizador Luís Porto.

O diretor, de 22 anos, assume que a solução deverá passar por «usar a criatividade como forma de cobrir o orçamento em causa»: «No cinema é tudo possível caso se tenha uma boa mistura de tempo e dinheiro, ou um dos dois em exagero».

«O tempo é o nosso trunfo, mas o cinema é uma arte de equipa e formar uma capaz de resolver os problemas orçamentais exige um grupo capaz e experiente. Como todo o profissional de qualquer área, o seu trabalho tem de ser justamente pago. E há os normais custos de um filme, cenografia, deslocações, estadias e alimentação, entre outros», completa.

A curta-metragem, que remonta ao Portugal rural de 1985, vai ser rodada de 20 a 26 de janeiro em Arga de São João (Caminha) e Sernancelhe (Viseu).

«Num cenário ideal, precisamos de 40.000 euros para a curta. Excluindo o apoio que já temos da GDA, com 2.500 conseguimos o básico: dormir, comer e deslocarmo-nos para os locais de filmagem. Mas será impossível pagar ao staff, "colorir" o trabalho, contratar duplos para a cena do acidente, ou fazer uma cena em 3D, determinante para mudar completamente o trabalho final», explica a produtora Laura Milheiro

A responsável de 22 anos entende que «o crowdfunding e os patrocínios são essenciais» para o êxito da missão, pois defende que a qualidade «é imprescindível para poder vingar em Cannes», pelo que desafia as pessoas a visitar o deusprovidenciara.wordpress.com e a contribuir para o projeto.

«Conseguimos fazer algo de qualidade com tão pouco? Conseguimos. Mas queremos ir mais além. Acreditamos muito na história e em toda a equipa. Vamos a Cannes surpreender», conclui.