Os atores Claudia Cardinale e Michael Lonsdale, duas das estrelas que participaram na última longa-metragem de Manoel de Oliveira «O Gebo e a Sombra» (2012), disseram à agência Lusa que perderam «um amigo».

Poucos dias depois de ter apresentado em Nova Iorque o mais recente filme em que participou, «Effie Gray», Claudia Cardinale, a musa de Sergio Leone em «Era Uma Vez no Oeste» (1968), contou, em entrevista à Lusa por telefone, que está «muito triste e que, apesar da idade dele [Manoel de Oliveira], não estava à espera que partisse assim».

A protagonista de «Rocco e seus irmãos» (1960) e «O Leopardo» (1963), de Luchino Visconti e de «Oito e Meio»(1963), de Federico Fellini, prestes a fazer 77 anos, lembrou já ter «participado em 151 filmes», nos quais se inclui «O Gebo e a Sombra», «feito em 25 dias» e do qual guarda «uma experiência extraordinária».

«Antes de vir para o estúdio, ele [Manoel de Oliveira] ia até à piscina. Era um homem incrível, com uma cultura imensa e uma memória extraordinárias. Era realmente um amigo e um grande encenador. A mulher dele também é fabulosa, eles formavam um casal belíssimo», contou.

Claudia Cardinale descreveu como é que foi convidada para participar no filme que junta também os franceses Michael Lonsdale e Jeanne Moreau e os portugueses Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira e Ricardo Trêpa: «Foi extraordinário. Eu estava no Festival de Veneza, ele foi ao palco e disse que eu era a sua atriz favorita. Fiquei tão contente que lhe mandei um bilhete para o hotel a agradecer. De imediato, ele convidou-me para o filme».

O ator francês Michael Lonsdale também contou à Lusa, por telefone, que «foi porque Michel Piccoli não podia participar» em «O Gebo e a Sombra» que foi parar ao filme.

«Sempre tinha sonhado trabalhar com o Manoel de Oliveira mas nunca se tinha proporcionado. O meu sonho realizou-se e tenho uma lembrança muito ternurenta e muito delicada. Infelizmente, no último dia [das filmagens] em que comemos juntos, ele estava a falar comigo e falou, falou, falou... Eu não ouvia uma única palavra por causa do barulho mas era incapaz de lhe pedir para repetir. Acho que perdi qualquer coisa de maravilhoso, mas a voz dele era muito calorosa», recordou.

O ator de 84 anos, que chegou a trabalhar com realizadores como Alain Resnais, François Truffaut e Luis Buñuel, disse estar «evidentemente triste» porque «todos gostariam que pessoas como ele nunca parassem», louvando «a obra muito original» do cineasta português que «não se submetia ao sistema».

«Era uma grande personalidade. Ele filmou coisas extremamente diferentes e tinha um espírito muito aberto e internacional. Ele é mesmo a glória de Portugal», declarou Michael Lonsdale momentos antes de subir ao palco, esta noite, para «declamar um poema sobre o amor» num espetáculo com o músico francês Titi Robin, em Tinqueux, na região de Reims, no nordeste de França.

O realizador português Manoel de Oliveira morreu quinta-feira aos 106 anos, na sua casa, no Porto, cidade onde nasceu a 11 de dezembro de 1908.

Manoel Cândido Pinto de Oliveira era o mais velho realizador do mundo em atividade.

O último filme do cineasta foi a curta-metragem «O velho do Restelo», «uma reflexão sobre a Humanidade», estreada em dezembro passado, por ocasião do 106.º aniversário.