O Governo português felicitou o cineasta Pedro Costa, distinguido no sábado no Festival de Locarno, na Suíça, com o Prémio para o Melhor Realizador, pelo filme «Cavalo Dinheiro».

No comunicado divulgado pelo gabinete do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, afirma-se que Pedro Costa é «uma das vozes mais relevantes do cinema nacional no contexto internacional».

«Pedro Costa tem vindo a desenvolver, ao longo da sua carreira, uma linguagem cinematográfica própria, gerando um contributo pessoal para o património cinematográfico contemporâneo e tornando-se uma das vozes mais relevantes do cinema nacional no contexto internacional», afirma o secretário de Estado, que atesta que «esta distinção é, também, mais um reconhecimento do cinema português».

«O secretário de Estado da Cultura felicita, em nome do Governo de Portugal, Pedro Costa pelo prémio de Melhor Realizador no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça», lê-se no mesmo comunicado.

No texto é sublinhado que, «com mais de 60 anos, o Festival Internacional de Locarno é considerado, pela crítica, um dos mais importantes festivais de cinema do mundo».

O prémio, patrocinado pela municipalidade helvética de Locarno, tem o valor de 30.000 francos suíços, cerca de 25.000 euros.

Num texto assinado pelo crítico Boris Sollazzo, publicado no portal do Festival, pode ler-se que o filme «Cavalo Dinheiro», é uma afirmação da «desilusão e deceção da Revolução dos Cravos».

«A degradação não apenas física, de Ventura [personagem recorrente do realizador] surge como uma metáfora para todo o país», escreve o responsável de Cinema Show e FilmHouse, no próprio sítio do festival na Internet.

Segundo Solazzo, que também é colaborador de publicações como a Rolling Stone, a Film Tv e La Rivista del Cinematografo, «esta é a última etapa, para já, de uma jornada criativa consistente e poderosa», do realizador português.

«Cavalo Dinheiro», que retoma a personagem Ventura, junta-se assim à trilogia iniciada com "Ossos", da qual fazem também parte «No quarto de Vanda» e «Juventude em marcha».

Pedro Costa, escreve Solazzo, «não renuncia ao seu estilo seco, nunca condescendente e perto do [do registo de] documentário».

«O legado de [Robert] Bresson parece pesar sobre os seus ombros com uma inspiração forte, ética e esteticamente, o que lhe permite acariciar a grande história e pequenas histórias com graça e lucidez», lê-se no mesmo texto.

«Partindo de um mundo antigo para um pequeno bairro de Lisboa, o olhar [de Pedro Costa] inclina-se para os marginalizados e os miseráveis, a injustiça e as promessas quebradas, conseguindo sair da narrativa visual lusitana para um estilo original, diferente, à sua maneira um clássico - "Ossos", [exibido] em Veneza, foi chamado por muitos de uma narrativa fílmica entre [Charles] Chaplin e [John] Ford - e muito moderno».

O crítico-chefe da revista norte-americana Variety, Scott Foudas, descreveu «Cavalo dinheiro» como uma «assombrosamente bela contemplação do passado» de Portugal e do «seu futuro incerto», destacando a universalidade das personagens de Pedro Costa, «pessoas [que se podem encontrar] em qualquer sociedade onde as falsas promessas de democracia e do capitalismo cortaram as suas hipóteses».

No inquérito feito pelo próprio festival, junto da crítica internacional presente em Locarno, antes da divulgação dos vencedores, «Cavalo dinheiro» foi o filme preferido, escolhido por Nicholas Elliott, dos Cahiers du Cinema, Maurizio Porro, do Corriere della Sera, Daniele Giacari, da Artspecialday.com, Stefano Della Casa, da Hollywood Party, além de Francisco Ferreira, do Expresso.

Esta foi a segunda vez que o realizador foi distinguido em Locarno. Em 2007 recebeu o Prémio do Júri, por «Memórias».