O realizador luso-suíço Basil da Cunha filmou «um samurai dos tempos modernos», a personagem Sombra em «Até Ver a Luz», primeira longa-metragem com a qual volta a olhar para o bairro onde vive, na Reboleira, Amadora, escreve a agência Lusa.

«Até Ver a Luz» encerrará no sábado o festival Curtas Vila do Conde e terá estreia comercial no país a 22 de agosto.

Depois de ter rodado as curtas-metragens «Nuvem» (2011) e «Os Vivos Também Choram» (2012), Basil da Cunha sentiu-se preso ao formato mais curto e decidiu avançar para uma longa-metragem.

O filme foi feito com um grupo de atores não profissionais que conheceu há seis anos, quando foi morar para a Reboleira, depois de ter vivido grande parte da vida na Suíça, onde nasceu.

«Até Ver a Luz» é uma ficção marcada pela realidade, sobre Sombra, um traficante que, acabado de sair da prisão, se vê numa encruzilhada no bairro degradado onde vive, perseguido pelo líder de um gangue e pelo seu próprio destino.

Sombra, papel interpretado por Pedro Ferreira, «é uma personagem que está à margem, dentro da margem que é o bairro. É um samurai dos tempos modernos, que só vive de noite; um estranho que não consegue escapar ao destino dele», afirmou Basil da Cunha.

Apesar da violência e do crime retratados, Basil da Cunha olha as personagens a partir de dentro, do universo onde habitam, sem os reduzir a «maus da fita». «Os que vêm de baixo são heróis. Eu vejo personagens a sublimar, com profundidade».



Basil da Cunha estudou cinema na Haute Ecole d'Art et de Design de Genebra e o seu cinema tem chamado a atenção, sobretudo na Europa, em particular nos festivais de cinema de Cannes (França) e de Locarno (Suíça).

O realizador orgulha-se de dizer que levou a Cannes atores não profissionais e que foi preciso ir ao festival para, em Portugal, o «olharem nos olhos»: «Não sou muito próximo do cinema português. Estou muito na Reboleira. Há um festival que me tem apoiado muito, o de Vila do Conde».

Para o realizador, o mais importante é o ato de filmar - «o cinema faz-se na rodagem, o momento da liberdade» deixando, no caso de «Até Ver a Luz», «um espaço grande para os atores se reinterpretarem a eles próprios», ainda que se apoiem num guião.

«Neste filme tudo é encenado, é uma ficção, mas há uma ambição de género e uma temática social», explicou.

Enquanto estreia «Até Ver a Luz», Basil da Cunha prepara a próxima longa-metragem - quer manter o ritmo de um filme por ano -, um «road movie» português sobre um gangue criminoso em fuga pelo país, com um camião do circo onde estão um leão, um cavalo e uma zebra.

Em agosto, Basil da Cunha estará em Locarno como júri de uma das secções do festival de cinema.