O realizador António-Pedro Vasconcelos afirmou à agência Lusa que seria bom ter Woody Allen a filmar em Portugal, mas considerou que os contactos feitos pelo Governo nesse sentido «soam a provocação» perante a atual crise no setor.

O cineasta, e presidente da Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisual (ARCA), questionou que dinheiro seria investido numa produção do realizador norte-americano em território português e que garantias seriam dadas na escolha, por exemplo, de técnicos portugueses.

«Porque não ter o Woody Allen a filmar em Lisboa? Acho bem, apesar dos últimos filmes dele terem sido um desastre. Acho que ia atrair turistas, era bom desse ponto de vista. O que é chocante é que estejamos perante uma ameaça de não termos financiamento no cinema português e o país estar a engalanar-se para receber um realizador estrangeiro», criticou.

Luís Filipe Menezes quer Woody Allen a filmar no Porto

Woody Allen, de 77 anos, já filmou nos últimos anos em Barcelona, Londres, Paris e Roma, tendo regressado aos Estados Unidos para rodar «Blue Jasmine», atualmente nos cinemas.

O cineasta tem sido cobiçado para rodar um próximo filme fora dos Estados Unidos, sobretudo por causa do impacto turístico em cada cidade escolhida.

No ano passado, disse numa entrevista ao canal TVI24 que para filmar em Lisboa bastaria que o convidassem e que lhe arranjassem financiamento.

Em agosto, o presidente da câmara de Lisboa, António Costa, afirmou numa entrevista ao semanário «Sol» que gostaria de ver Woody Allen a filmar na capital portuguesa e que têm sido feitos contactos com a produção do realizador.

O Governo português confirmou na terça-feira que no ano passado foram feitos contactos pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), Paulo Portas, com a equipa do cineasta, «para analisar em concreto o interesse e as condições para fazer um filme em Lisboa».

Governo português também quer filme de Woody Allen em Lisboa

Tratou-se, na altura, de uma iniciativa conjunta do MNE, da Câmara Municipal de Lisboa e do Turismo de Portugal.

«Era uma forma extraordinária de promoção de Portugal e de Lisboa em concreto», disse à Lusa fonte do gabinete do vice-primeiro-ministro, Paulo Portas.

Para António-Pedro Vasconcelos, todo este empenho «cai mal e soa a provocação» aos produtores e realizadores portugueses, tendo em conta que «é preciso resolver os problemas com a nova lei do cinema».

O realizador, e a associação que preside, tem-se oposto ao princípio que rege a legislação, considerando que os agentes do setor envolvidos deviam ter sempre obrigações de investimento e não pagamento de taxas ao Estado.

«Não deve ser o Estado a arrecadar receitas de taxas para depois as distribuir nos apoios a filmes selecionados por critérios de gosto», disse.