Já lá vão 106 anos. Manoel de Oliveira é o cineasta mais velho do mundo. Se a longevidade é considerada coisa rara, o que mais parece impressionar o público e os especialistas é o facto de continuar, ainda hoje, a trabalhar, ou seja, a fazer filmes.
  
Como é que ainda se mantém ativo? Um milagre? Oliveira chamou-lhe «um capricho da natureza» por altura do seu 100º aniversário. 



Muitos tentam adivinhar o seu segredo. Como fez o realizador checo e norte-americano Milos Forman, numa visita a Portugal em 2009. Depois de ter provado o vinho do Porto, Forman afirmou aos jornalistas que, por fim, conseguia perceber «como é que o senhor Manoel de Oliveira consegue viver até aos 100 anos e continuar a fazer filmes».

A afirmação até pode ter sido feita em tom de brincadeira, mas a verdade é que pode não ter sido, de todo, descabida. Recorde-se o exemplo da francesa Jeanne Calment que viveu até aos 126 anos. Nas várias entrevistas que concedeu, Calment revelou aquilo a que muitos chamaram a dieta da felicidade. Além de ter revelado que comia um quilo de chocolate por semana, a francesa confessou que bebia um copo de vinho do Porto por dia.

Não se sabe se Manoel de Oliveira segue o exemplo de Calment no que ao vinho do Porto diz respeito, mas, como explicou à TVI24 o Prof. Dr. Manuel Carrageta, Presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG), a capacidade de apreciar as coisas boas da vida, que a francesa tinha, pode ser um dos segredos da longevidade do cineasta.

«Há um perfil psicológico que está associado aos centenários: são pessoas muito bem dispostas e otimistas. Caraterísticas que também vejo em Manoel de Oliveira», sustentou.

Mas há outros fatores que permitem chegar a uma idade tão avançada. Uma vida demarcada por hábitos saudáveis é um princípio fundamental, garante o Prof. Dr. Carrageta.

«Pessoas que não são obesas, que não fumam, que têm uma alimentação rica em vegetais, em peixe, em azeite, têm probabilidade de viver mais tempo», afirmou.

A alimentação pode, de facto, ser uma pista. Numa entrevista ao jornal «Público», em 2008, Oliveira confessou a sua preocupação em comer de forma saudável.

«Como sopa, de legumes. Porque um cientista, que fez um exame à nutrição dos americanos que deixaram de comer sopa às refeições, declarou que se eles retomassem a sopa diminuiriam o cancro em mais do que 50 por cento. Também gosto de sopa de peixe...», disse, na altura.

Casos como o de Manoel de Oliveira não são comuns, mas para o Presidente da SPGG, que tem acompanhado vários centenários nos últimos anos, «são cada vez menos excepcionais».

Para se ter uma ideia, em 2013 viviam em Portugal 3393 pessoas com mais de 100 anos de idade, um número cinco vezes superior ao que foi registado no censos de 2001. Mais, o nosso país até já teve um supercentenário (alguém que passa os 110 anos): Maria Dolores Ferreira vivia em Barcelos e chegou às 113 primaveras, feito que a fez integrar a lista do «Gerontology Research Group», um grupo de investigadores na área da gerontologia,da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Continuar a trabalhar, tal como o cineasta, que esta quinta-feira estreia a curta-metragem «O Velho do Restelo», pode mesmo ser a chave para desafiar as leis da natureza.

«As pessoas que se mantêm ativas têm probabilidade de viver mais tempo. O facto de se ter um objetivo é muito importante», afirmou o Prof. Dr. Carrageta.

São 106 anos e mais de 50 filmes realizados. Manoel de Oliveira é o único realizador em atividade que assistiu à passagem do cinema mudo ao sonoro e do preto e branco à cor. Cansaço? Só quando não trabalha.

«Tenho a fertilidade das árvores que sabem que vão morrer. Não estou cansado, só me canso quando não trabalho», afirmou à revista brasileira «Época», em 2011.