Manoel de Oliveira, que morreu esta quinta-feira aos 106 anos no Porto, é considerado o maior cineasta português de sempre. Mas o mais premiado dos realizadores portugueses nem sempre foi uma figura consensual, antes pelo contrário.

                  


A história e o percurso do realizador confunde-se com a história do cinema português. Afinal, o portuense atravessou praticamente todas as fases do cinema, do mudo ao sonoro, do preto e branco à imagem a cores, dos anos 30 à atualidade.

Mereceu destaque nos mais importantes festivais de cinema do mundo, onde estreou vários filmes e ganhou prémios. Muitos prémios.

Com os filmes «Amor de Perdição» (1978), «Francisca »(1981) e «Le Soulier de Satin» (O Sapato de Cetim, 1985) recebeu o Prémio da Crítica no Festival de Veneza. Aqui, também recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da sua obra. Em Cannes recebeu o prémio Especial do Júri pelo filme «A Carta» (199) e a Palma de Ouro de Honra pelo reconhecimento da sua obra recebeu-a em 2008.

Foi homenageado e distinguido em diversos países e até recebeu condecorações: o grau de Comendador da Ordem de Legião de Honra francesa, o Prémio Mundial das Artes Valldigna, atribuído pelo Governo Regional de Valência, a Medalha de Ouro do Círculo de Belas Artes de Madrid e, por cá, foi condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem Infante D. Henrique.

Ao longa da carreira foi destacado nas mais prestigiadas publicações de cinema do mundo como a francesa «Cahiers du Cinema», que não deixou de homenagear o cineasta na hora da partida.

Por tudo isto, justifica-se dizer que a importância de Manoel de Oliveira vai para além do seu contributo na sétima arte e estende-se ao papel de embaixador da língua e da cultura portuguesa no estrangeiro.

Mas se é importante referir o reconhecimento de Oliveira além-fronteiras, será necessário também refletir sobre o impacto do seu cinema por cá e lembrar que a figura do realizador nem sempre foi consensual e que, ainda hoje, continua a dividir espectadores.

Um cinema lento, sem ritmo, sem ação, dizem muitos. Um cinema aborrecido, por vezes triste, dizem outros.

O que separa, afinal, os filmes de Oliveira do público português?

Não se pode dizer que há explicações claras, mas há fatores que podem ter o seu peso.

Oliveira tinha uma marca e um registo muito próprios, que o distinguiam dos demais e isso poderá ser, para muitos, um fator de aproximação e, para outros, um fator de afastamento.

Os especialistas consideram que o seu cinema privilegia a representação e serve-se do teatro como influência primordial. Há mesmo quem diga que os seus filmes são como grandes palcos da realidade do mundo: dor, violência, amor ou sonho - retratos da humanidade.

Aqui, os atores têm um espaço e um tempo muito próprios e, além disso, o cinema é feito de contemplação - os planos têm liberdade e tempo de respiração. Não há pressa. O espectador é convidado a entrar, a ficar e a envolver-se.

Caraterísticas que são, no fundo, opostas às do cinema de entretenimento, onde os planos são mais curtos, as cenas têm mais ritmo e há, por isso, uma maior rapidez no desenvolvimento da narrativa e da ação.

Dado o domínio dos filmes de entretenimento no setor, muitos especialistas defendem que o facto dos espectadores estarem habituados a este tipo de linguagem mais rápida e instantânea os pode afastar de um estilo diferente, que não lhes é familiar.

Há também quem aponte outra razão e que tem a ver com a relação do público português com o cinema nacional, no geral. Os filmes portugueses, ao contrário do que acontece noutros países europeus, não são propriamente os mais vistos no país, de acordo com os números apresentados pelo ICA de ano para ano.

Neste sentido, Manoel de Oliveira poderá ser considerado apenas um entre os vários realizadores que se encontram distantes do público português.