Esta semana os destaques mediáticos oscilaram entre a euforia da vitória no Euro2016 e o ataque suicida em Nice (seguido pela tentativa de golpe de estado na Turquia). Nos temas económicos só a recapitalização da CGD continuou a ter destaque, ainda que menos do que nas semanas anteriores.

Mas se o lado negativo da economia tem destaque noticioso de forma constante, o seu lado positivo raramente passa das notas de rodapé e pequenas notícias. Esta semana foi muito clara sobre essa abordagem, com (pelo menos) três assuntos com implicações para a economia portuguesa a não conseguirem destaques relevantes.

Na quarta-feira o estado português angariou 1155 milhões de euros num duplo leilão de títulos de dívida de médio e longo prazo. Se os juros tivessem subido, haveria todo o tipo de destaques. Como o Tesouro financiou-se a dez anos com juros mais baixos do que no leilão anterior (o que revela confiança na economia portuguesa), não houve destaques.

Após semanas em que a greve dos estivadores no Porto de Lisboa teve todo o destaque, quase ninguém noticiou o facto da Comunidade Portuária de Lisboa se congratular com o acordo de paz social entre operadores e estivadores. E nem a conclusão de que os armadores estrangeiros podem confiar de novo no Porto de Lisboa, o que é de grande importância para as exportações portugueses, ajudou a notícia a ter destaque.

Igualmente muito mediático foi (e deverá voltar a ser) a não renovação de parte dos contratos de associação do Estado com os colégios privados. Os destaques não pararam enquanto havia manifestações organizadas a favor da subsidiação de privados, mesmo que não houvesse necessidade pública. Esta semana, uma inspeção das Finanças arrasou os subsídios atribuídos (incluindo a maioria que se vai manter) devido à falta de controlo total sobre o destino dados pelos colégios privados aos financiamentos públicos. Perante a evidência, a necessidade de regulação e revisão do processo ficam claros, de forma a poupar dinheiro aos contribuintes. Mas esse facto positivo também não obteve destaque.

Perante estes três casos, que servem de exemplo do silêncio sobre a economia positiva, fica clara a tendência da comunicação social portuguesa para a mediatização recorrente da economia catastrofista.

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.