A referência de 2% para a taxa de inflação na zona euro permite o ajustamento das economias dos países da moeda única, afirmou esta terça-feira o governador do Banco de Portugal, contrariando a tese defendida pelo economista Paul Krugman.

«O conceito de estabilidade nominal está dependente de um valor de referência e esse valor de referência tem de dar a possibilidade para as economias se ajustarem», disse Carlos Costa aos jornalistas, à saída do Fórum do Banco Central Europeu (BCE), em Sintra.

«Para nós, Conselho de Governadores e BCE, [o nível de ajustamento] está claramente definido em torno de 2%, ligeiramente abaixo de 2%, que há de dar a margem de manobra para que as economias se ajustem de forma a prosseguir o ajustamento setorial, o ajustamento regional e o ajustamento nacional que é necessário num contexto de dinâmica de ajustamento», acrescentou, citado pela Lusa.

Isto, depois de ter sido questionado sobre a posição assumida pelo Nobel da Economia Paul Krugman, que defendeu hoje, no mesmo evento, que a taxa de inflação na Europa devia ser superior ao atual valor de referência de 2%, de forma a permitir o ajustamento das economias europeias.

«A resposta foi dada pelo presidente [do BCE] Draghi. Não há um risco de deflação, mas uma baixa inflação é motivo de preocupação. E, obviamente, nós estamos muito atentos enquanto governadores no seio das instâncias que são adequadas a esse problema», realçou.

Segundo Carlos Costa, «a resposta do presidente Draghi no discurso de abertura foi concludente. Há agora que aguardar pelo que isso significa».

E concluiu: «O que toda a gente está de acordo é que é preciso estabilidade nominal, porque significa uma garantia de bom funcionamento das economias, significa uma eliminação da margem de incerteza, é boa para os investidores, é boa para os aforradores e é boa para os agentes económicos».

O prémio Nobel da Economia de 2008, Paul Krugman, defendeu hoje, em Sintra, que os bancos centrais «têm de ser agressivos» na ação para evitar a «armadilha de baixa inflação», como aconteceu no Japão durante mais de uma década, e afirmou que o BCE devia alterar a «misteriosa doutrina» dos 2% a médio prazo.

Para Krugman, os bancos centrais «estão em negação» ao acreditarem que o pleno emprego é possível com uma inflação de 2%, defendendo que essa taxa «tem de ser maior», uma vez que, por ter funcionado no passado, isso não significa que continue a funcionar.

Segundo o académico, uma taxa de referência de 2% não tem permitido o ajustamento das economias em dificuldades, pelo que, no seu entender, uma meta de 4% seria mais adequada.