A informação mais destacada da semana é o Orçamento do Estado. Porém, esta notícia de “política económica” não se distancia muito da cobertura que teve a segunda notícia mais ventilada durante a semana nos media, a qual é de “economia política”: o congresso de um dos partidos da anterior coligação, agora assim denominada, “Caranguejola” das Direitas.

Em boa verdade praticamente só não está um partido envolvido nestas duas notícias de topo, precisamente o partido que antes liderava a governação. Este partido aparece deslocado dos movimentos basculantes que reforçam e retro-alimentam a economia e a política nas suas diversas combinações. Vejamos, por exemplo, a última notícia: o caso da muita criticada liderança do Banco de Portugal. Tanto os partidos das esquerdas, tal como agora se viu o próprio CDS, são bastante demolidores quando há competência e eficácia da instituição. Quem aparece isolado? O PSD.

Mas o isolamento do maior partido da oposição, que antes tanto tentou puxar pelo lustro da recuperação da sustentabilidade da economia, ainda é maior se atentarmos a dois outros factos.

Em primeiro lugar duas palavras em inglês: Arrow e Swaps. Foi só na semana passada o escândalo da contratação de Maria Luís Albuquerque por uma empresa do mundo da gestão de dívidas. Embora esta notícia tenha saído de fininho do top10 ficou-se depois a saber que o próprio Passos Coelho tinha dado o seu aval à sua antiga ministra, que agora vai ser mais remunerada pelas suas funções fora do Parlamento do que dentro dele.

Em segundo lugar, a arquitetura da finança em Portugal preocupa cada vez mais gente, incluindo, figuras saídas do eixo político Laranja. Marcelo Rebelo de Sousa foi noticiado como estando a tentar acautelar a excessiva exposição da banca nacional ao domínio espanhol mesmo antes da sua tomada de posse enquanto Presidente da República. E a antiga ministra das Finanças do PSD, Manuela Ferreira Leite, alertou mesmo que a soberania do sistema bancário está em risco e que isso pode pôr em causa a própria recuperação económica nacional no quadro de um sector cheio de problemas.

Esta é uma semana em que as grandes notícias têm uma distribuição de frequências muito próximas. E assim se vai fazendo a transição de um ciclo político-económico para outro. Ainda sem grandes ondas, é certo, e o mar mediático está relativamente plano. Mas sabemos como é o oceano, mesmo quando parece calmo à superfície as correntes são fenómenos de águas profundas.

 

 

Não foi notícia: Desamar a escola

O estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a adolescência, divulgado esta semana, não teve grande eco nos media, apesar dos dados sobre os jovens portugueses. O que salta à vista é o elevadíssimo nível de insatisfação com a escola: apenas 11% dos rapazes e 14% das raparigas de 15 anos dizem que gostam muito. Para qualquer pai ou educador, estes valores deviam fazer soar todos os alarmes mas, com raras exceções, não se viu preocupação. Como se a escola fosse por definição uma obrigação e não algo fundamental para o desenvolvimento das sociedades e dos seus cidadãos. Aborrecida é palavra recorrente para justificar o desamor pela escola, ainda presa a lógicas do século XX quando os alunos já são todos do século XXI.

M.C.

 

Tema emergente: Madrid me mata?

O Presidente da República visita Madrid num momento crítico da situação política Espanhola. Vários meses depois das eleições de Dezembro não há novo governo mantendo-se ainda um PP debilitado pelos escândalos. Esta visita é feita pelo Presidente de um país que escolheu a solução de governo que mais agradaria ao líder do PSOE. Por outro lado, uma questão central em toda a negociação é a Catalunha, cuja consulta o Podemos, nas suas várias encarnações regionais, não deixa cair e que os barões do PSOE querem evitar. Por isso, visitar Madrid e não dar a mesma importância visitando Barcelona ou outras cidades que constituem o país Espanha tem hoje uma leitura política tanto para Filipe VI como para todos os restantes intervenientes e será notícia, senão em Portugal pelo menos em Espanha.

G.C.

 

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias mais destaques nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, SOL, TVI24 e SIC Notícias.