Esquecimento e enviesamento histórico, proximidade extrema e emoção são os novos padrões da cobertura do terrorismo e não estamos a perceber isso ao usarmos as redes sociais e ao produzir, ler, ver e ouvir as nossas notícias. 

Ao ler as notícias sobre os ataques em Bruxelas encontramos um padrão e não tanto novidade, o padrão é o de Paris e dos ataques aí perpetrados em Novembro de 2015. O padrão não é o que os especialistas, ou aqueles que adquirem essa designação quando ganham minutos de fama nos ecrãs, normalizaram através da ideia de que se há refugiados há perigo terrorista ou que com estes governos e esta UE não há segurança. O padrão é outro, é o do tipo de notícias que cada vez mais é semelhante ao fluxo do Twitter, como se as peças de 2000 caracteres ou de 1 minuto se tivessem deixado influenciar pela escrita sintética e imediata do Twitter destinada a, em 140 caracteres, causar mais emoção e resposta do que atenção e informação. 

Até o Facebook neste contexto se tornou previsível ao ativar a ferramenta "estou bem" para os seus utilizadores na área da grande Bruxelas, tal como havia feito em Paris. Com Bruxelas, depois de Paris, há assim a instalação de uma espécie de nova normalidade padrão que nos diz que vivemos por um lado momentos excepcionais, pois nunca tal foi visto - o que é falso - e por outro lado nos mostra que temos de nos resignar a perceber que este estado de coisas vai durar muito tempo, o que não é inevitável. A questão fundamental é perceber se tal é mesmo assim ou se parece ser assim? Obama, e não os académicos ou jornalistas, já deu a resposta através dos jornais instando a que "não se responda com o medo" o que é uma sábia lição de um país que depois de 2001 fez vários erros graves por ter respondido com o medo e aprendeu. Resta saber se nós ouviremos e saberemos fazer diferente.

 

 

 

 

Não foi notícia: Ignorar os precários

As leis do trabalho portuguesas estão desfasadas da realidade, e ninguém parece preocupado em resolver o problema. De um lado temos os patrões e a direita, que sonham com um modelo de desregulação total. No outro polo está a tradição sindicalista e da esquerda, apenas preocupada com contratos blindados. No meio temos centenas de milhares de portugueses, aqueles que trabalham em regime de prestação de serviços ou a prazo. Têm todas as obrigações e nenhum direito, nem sequer a planear o seu futuro próximo. Esta semana houve debate parlamentar sobre os precários e foi noticiado o crescimento exponencial de subcontratados, mas nenhum chamou a atenção dos media. E todos os responsáveis, do alto do seu futuro garantido, continuam a nada fazer.

 

Tema emergente: 'Espanholização'

Nas últimas semanas o jargão jornalístico ganhou o termo 'espanholização' e o sistema financeiro português entrou definitivamente na agenda noticiosa. De acordo com os dados do Barómetro, o número de notícias sobre o domínio da banca espanhola tem vindo a aumentar desde 12 de Março. Esta semana o tema voltou a surgir na esfera política com a notícia do Expresso de 18 de Março sobre o envolvimento do Primeiro Ministro no acordo com Isabel dos Santos para entrada no capital do BCP. A troca de argumentos que se seguiu envolvendo Pedro Passos Coelho e Marcelo Rebelo de Sousa indicam claramente que a estabilização e regulação do sistema financeiro nacional entrou na agenda política ao mais alto nível. Algo que o líder do PSD parece não ter compreendido ou desejado. Isto a alguns dias do Congresso do seu partido político que poderá ser, também, um dos temas quentes no que respeita o destaque jornalístico.

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias mais destaques nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, SOL, TVI24 e SIC Notícias.