Como era previsível, a primeira notícia do barómetro desta semana, foi a tomada de posse do novo presidente da república. Uma coisa que me surpreendeu, logo desde o início da marcha de Marcelo Rebelo de Sousa em direção a Belém, foi o facto de que todos, independentemente do alinhamento político, sempre o chamaram, simplesmente, Marcelo.

Não consigo imaginar algo parecido com outros inquilinos de Belém, por exemplo, presidente Mário, presidente Jorge ou presidente Aníbal. A forma como a tomada de posse se desenvolveu também apresentou novidades, espelho do novo ‘estilo Marcelo’. A inédita visita à Mesquita, com a presença de representantes de 18 confissões religiosas, foi sem dúvida a inovação mais significativa. A era de Marcelo o ecuménico será com certeza muito diferente da anterior, pelo menos a nível de estilo, mas sabemos que na política o estilo e a imagem são importantes, mas não são tudo. E na visão política e económica, as diferenças poderão não ser tão grandes.

De Marcelo à I Liga, segunda notícia deste barómetro, a passagem parece quase óbvia. Mas talvez mais interessante é sublinhar o interesse levantado pela questão dos refugiados, que ocupa o terceiro lugar. A cimeira entre União Europeia e Turquia e a chegada a Portugal de pessoas, sobretudo fugindo do Iraque e da Síria, não levantam as mesmas polémicas que noutros países europeus. Nenhum partido ou grupo político – a não ser o residual PNR – levantou a bandeira da ‘defesa das fronteiras’. É verdade que a pressão deste problema é menor sobre Portugal, mas esta especificidade parece indicadora de uma diferente atitude que, neste caso, não é apenas uma questão de estilo.

 

Não foi notícia: Eutaquê?

Apenas uma semana após a eutanásia ter tido grande destaque noticioso e alguns debates acesos nas redes sociais, os media portugueses esqueceram a discussão sobre a morte medicamente assistida. Tradicionalmente um tema tabu, a eutanásia voltou a ser assunto após declarações da bastonária de Ordem dos Enfermeiros sobre alegadas práticas de eutanásia encapotada em hospitais públicos. A legalização da possibilidade de um doente terminal (sem hipóteses de cura e em sofrimento permanente) pedir apoio médico para terminar a sua vida, podia ter dado origem a um debate alargado e discussão parlamentar. Mas, em vez de se tentar chegar a conclusões consensuais na sociedade portuguesa, esta semana discutiu-se o suicídio no Alentejo.

M.C.

Tema emergente: (In)compatibilidades 

A polémica em torno da contratação de Maria Luís Albuquerque pela empresa Arrow Global trouxe a relação entre política e negócios para o debate público. Resta saber se estamos perante um tema emergente que irá manter-se nos próximos tempos ou apenas um assunto temporário que se extinguirá quando a polémica contratação perder o seu valor-notícia. Apesar da quantidade de peças noticiosas publicadas nos últimos dias sobre a contratação da anterior Ministra das Finanças pela empresa inglesa, o problema público do regime de incompatibilidade de titulares de cargos políticos em Portugal surgiu pouquíssimas vezes como fio condutor nos destaques noticiosos analisados pelo Barómetro de Notícias.

D.T.

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias mais destaques nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, SOL, TVI24 e SIC Notícias.