Qual é a tua leitura da situação política em Portugal? Esta foi a pergunta que um amigo inglês que é jornalista, YouTuber e autor de best sellers me colocou no início da semana. 

Escrevi-lhe o que pensava poder dizer-lhe sobre o que havia visto acontecer nas últimas semanas dentro e fora de Portugal. Depois de quase uma semana e 414 notícias mudaria o que escrevi?

A resposta é que não, porque entre mortes e eutanásia, suspeitas de corrupção, futebol, mau tempo, Óscares, Trump e Clinton tivemos também o orçamento, a campanha sobre Jesus e os dois pais e uma contratação que desta vez não foi futebolística mas da política para a finança. 

O que lhe escrevi foi simplesmente que as coisas aparentavam estabilidade - tanto quanto é hoje possível na UE. 

Disse-lhe que o Bloco e o PC conseguiram até agora, de formas diferentes, encontrar um equilíbrio com os socialistas (isto é, aprovam o orçamento e obtêm ganhos ao nível das políticas de vida e sociais). 

Que o governo do PS tem conseguido obter a aprovação dos seus pares da UE e comissão, embora a contragosto dos eurocratas de direita que ocupam os postos de topo da comissão e do BCE - veremos após o referendo inglês. 

Que o PSD adoptou uma estratégia de dar a ideia que o anterior PM é ainda o atual PM. Mas  que o CDS, por outro lado, adoptou uma posição de oposição. 

Portanto, disse-lhe que toda a gente nos partidos está perante um impasse tentando perceber quando será o melhor momento para colocar o interesse do seu partido acima do atual interesse estratégico.

E o que é o atual interesse estratégico? Sugeri-lhe que para o BE e PCP é manter a direita fora do governo e para a direita é manter o PS no governo até que a Europa volte a jogo ou o BE ou PCP entrem em rota de colisão com o PS. 

Para o governo, o interesse é continuar a governar nesta estabilidade. Visto que quanto mais tempo ela durar menos provável é o regresso do PSD e para o BE e PCP mais alto será o preço a pagar por a romper.

O meu amigo não comentou a minha resposta e por isso talvez o melhor seja mesmo ler o seu livro que tem como subtítulo "Um guia para o futuro" e esperar que venha cá antes das próximas autárquicas, que são a data de validade da minha resposta.

 

Calais, je t’aime

A destruição da Selva, o mega-acampamento de refugiados nas imediações de Calais, é o ponto mais quente da crise europeia dos refugiados. Mas, apesar do drama e até das imagens de choque, tão apreciadas pelos media, em Portugal o tema não teve qualquer destaque durante a semana.

A lógica oficial francesa de esconder o lixo debaixo do tapete (se não os virmos, os refugiados não existem) levou a confrontos entre a polícia e os migrantes, muitos deles há meses naquela terra de ninguém. E a promessa de alojamento num “bidonville” de contentores não evitou confrontos, resolvidos com uso de gás lacrimogéneo contra homens, mulheres e crianças.

Para já pretendem alojá-los em contentores. Será o passo seguinte despachá-los num qualquer cargueiro liberiano?

M.C.

O futebol e a política

Dois temas noticiosos obterão muita atenção dos órgãos de comunicação social nos próximos dias. No futebol assistiremos certamente ao destaque do jogo entre Sporting e Benfica. Na política, à cerimónia de tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa.

Aliás, de acordo com os dados do Barómetro de Notícias Marcelo Rebelo de Sousa recebeu, nos últimos dias, mais destaque jornalístico do que a situação dos refugiados e migrantes.

Marcelo Rebelo de Sousa desempenhou o papel de comentador político nos últimos anos, mas a partir do próximo dia 9 de Março será como Presidente da República Portuguesa que se relacionará com a comunicação social e sobre essa nova relação existe certamente muita expectativa na opinião pública.

D.T.

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias mais destaques nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, SOL, TVI24 e SIC Notícias.