Normalmente, as notícias sobre acontecimentos em outros países ganham preponderância quando um grande desastre ocorre nesses locais, ganhando o destaque noticioso durante vários dias e captando a atenção, os receios e a solidariedade dos portugueses. No entanto, não foi esse o caso desta semana.

França foi o local onde mais de um terço das notícias presentes nos destaques ocorreu. O que fez com que a atenção deixasse Portugal e assentasse arraiais em França, produto da coincidência temporal entre o campeonato europeu de futebol, a presença da seleção de Portugal e as comemorações do dia de Portugal. 

A maioria dos portugueses viveu este 10 de Junho com a novidade de o mesmo ser repartido entre Lisboa e Paris e a comunicação social deu amplo destaque a essa dualidade do dia de Portugal. No entanto, o que não seria expectável, mas que sucedeu, foi que os destaques sobre o dia de Portugal tenham derivado, em mais de 90% das notícias transmitidas, da parte dos eventos de dia 10 que ocorreram em Paris.

Já sabemos que o empate de Portugal frente à Islândia soube a derrota, mas a análise das notícias que antecederam o embate entre os dois países não foi, ao contrário, do apregoado em muitos comentários pós-encontro, de euforia sobre a vitória que aí vinha ao virar da esquina. As notícias sobre a seleção foram, à exceção de 14 destaques em 100, sobre tudo menos sobre o potencial resultado do jogo - até tivemos dois destaques sobre o jogo com a Áustria. Tivemos notícias sobre Quaresma, Éder e Renato Sanches (com uma ausência de destaques à equipa como um todo ou a Ronaldo), sobre os treinos, o selecionador, viagens das equipas, contratações e transferências. 

Os destaques sobre a potencial vitória vieram dos adeptos, já que a lembrança das derrotas e das más entradas foram destaque da comunicação social, lembrando o resultado da derrota com a Alemanha no último mundial.

O terceiro F que marcou os destaques da semana foi o do Fascismo, neste caso do fascismo islamita do Estado Islâmico. Os ataques perpetrados em França e nos EUA, reivindicados em nome do Estado Islâmico, mostram que é de fascismo que se trata. Não se trata apenas de luta entre um autodenominado Estado e outros Estados, mas sim da tentativa de dizimar todos os que se considera serem "os outros".

A análise da semana não poderia ficar completa sem constatar algo que se está a tornar um padrão das temáticas noticiosas, a omnipresença de Marcelo Rebelo de Sousa. O actual Presidente da República voltou a ser estrela noticiosa da semana, com 55 referências em 410 destaques analisados (13,9% dos destaques na amostra). 

Em termos comparativos houve mais referências a Marcelo Rebelo de Sousa do que destaques sobre o 10 de Junho (que teve 41 destaques). Fica a questão de saber se tal se deve, ou não, à profusão de assessores e consultores com origem na comunicação social e até quando as audiências viverão essa relação sem que ela se transforme numa mera relação de rotina.
 

 

 


 
Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.