“Se quisermos que as coisas fiquem como estão, as coisas terão de mudar” é uma tradução literal da célebre frase do livro “Il Gatopardo” de Lampedusa e passado depois a filme por Visconti nos anos sessenta, mas também serve para caracterizar o agosto português.

Durante o mês de agosto de 2018 as nossas preocupações, exteriorizadas na comunicação social, foram simultaneamente diferentes no tempo e espaço, um ano passou, e as mesmas nos temas que nos haviam já ocupado a atenção em agosto de 2017. Felizmente, sem o número ultrajante de vítimas de incêndio do ano, mas com os incêndios e os acidentes sempre em alta na nossa atenção coletiva.

Olhar o passado e comparar o mesmo com o presente não é um exercício fácil, aliás não há profissão que dele faça uso e nem os historiadores, habitualmente, se preocupam em fazer pontes com o presente. Estamos sempre mais preocupados com o “agora” e com o “futuro” do que com o que já se passou. A exceção talvez sejam as taxas de crescimento do PIB e do desemprego que estamos sempre a comparar com o que já foram face ao que são hoje.

A pergunta óbvia é se estamos condenados a repetir o passado, dado que poucas vezes o comparamos com o presente? A resposta de um sociólogo da comunicação é que não estamos nunca condenados, pois há sempre escolhas, mas essas dependem também da forma como pensamos e como encaramos a comunicação no nosso quotidiano.

Ao analisar as notícias de agosto de dois anos sucessivos fica a marca da repetição, os mesmos três temas (incêndios, futebol e acidentes). Dois temas ameaçadores (mas que têm de ser relatados, pois aconteceram) e um tema de catarse (o futebol, que também aconteceu). As notícias dão-se porque acontecem, correto? A resposta necessita de um reparo, também há “Fake News”, mas na maioria dos casos dão-se porque aconteceram mesmo. Portanto, a questão não é tanto o acontecer, mas sim o repetir. Por exemplo, para não falarmos de incêndios podemos falar de futebol. Todos nós nos lembramos da omnipresença do tema Sporting na televisão, jornais, rádio e internet nas semanas de maio e junho que antecederam a destituição de Bruno de Carvalho. Era notícia, era importante, havia audiência, mas também se tornou viciante, repetitivo e obsessivo.

O padrão comunicativo normal na comunicação social ocorre quando se percepciona a importância de um tema. Mas, ao não estabelecer pensamento crítico sobre qual o limite da repetição de notícias, face a um tema, cai-se na armadilha do sublime da repetição. De tão focados estarmos num dado tema não conseguimos deixar de o apresentar, comentar, multiplicar. Esse é o estado de sublime repetição que impede a comunicação de fluir. De tanto repetir um tema as audiências vivem um estado de vício momentâneo e o jornalismo transfigura-se em obsessão e só algo muito forte, normalmente outra catástrofe, quebra o sublime.