O mês de Agosto é uma época em que as crises parecem ganhar vida própria. Se olharmos para os anos passados vemos que a crise do Euro, da União Europeia e da Grécia também teve o seu forte momento ao longo dos verões e há mais exemplos. Neste mês de Agosto a Coreia do Norte, o seu programa nuclear e os misseis balísticos fizeram as manchetes. E, esta semana, o teste nuclear, supostamente de uma bomba de hidrogénio, fez com que as notícias sobre a Coreia do Norte fossem o número um em Portugal.

Sabemos que os protagonistas são o líder da Coreia do Norte, o Presidente dos EUA e que o líder da China e o Presidente Russo também têm algo a dizer sobre o assunto. No entanto, as notícias raras vezes nos dão o contexto mais alargado sobre o que se passa. Nas notícias não encontramos referência a que esta é a guerra mais longa em curso entre estados, pois dura desde Junho de 1950 perfazendo 67 anos – pelo meio houve o armistício em 1953, mas em termos técnicos a guerra entre as duas Coreias está activa.  Também quase nunca somos lembrados que tudo começou com a libertação da ocupação japonesa da Coreia durante a segunda guerra mundial, na qual os russos ocuparam a zona que viria a ser a Coreia do Norte e os americanos a zona que daria lugar à Coreia do Sul. Ou ainda que nos anos cinquenta a guerra das Coreias foi travada entre países que faziam parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas - de um lado a coligação da ONU liderada pelos EUA e do outro as tropas Chinesas com o apoio Russo. Embora se tenha utilizado já a comparação com a crise dos misseis de Cuba, esta tensão é diferente pois o Presidente dos EUA está hoje politicamente enfraquecido (algo que Kennedy em 1962 não estava) e essa outra crise durou apenas 13 dias enquanto esta está para durar.

Mas não foi apenas o inferno nuclear que nos acompanhou nesta semana nos destaques. Ao nuclear juntou-se um dos maiores furacões de que há registo, o Irma, mostrando-nos que a própria natureza pode ser tão destruidora quanto as bombas e que, mesmo o país com o maior arsenal nuclear do planeta, muito pouco se pode fazer quando a força dos ventos se aproxima da Florida e se junta à destruição já vivida no Texas.

Embora a mudança climática não tenha ainda trazido os furacões até ao nosso país temos o flagelo dos fogos florestais, que faz com que esta semana a nossa atenção nas notícias tenha sido dominada pelas catástrofes do presente (e últimos meses) e pela antecipação de uma catástrofe de proporções não antecipáveis ainda.

Nos anos sessenta dizia-se que os testes nucleares estavam a dar cabo do tempo, hoje, já quase sem testes nucleares, o tempo está a ser destruído pelo nosso quotidiano. E, se não  tivermos cuidado a política, velha de quase setenta anos, pode acabar por destruir o nosso quotidiano (e a vida no planeta).

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Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.