Em 2014 estavam no governo PSD e CDS, hoje está o PS com apoio parlamentar do BE, PCP, PEV e PAN. Em 2014 ocorreu um surto de Legionella em Vila Franca de Xira sendo então Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho e em 2017 a bactéria voltou com António Costa à frente do governo. A bactéria é a mesma, os governos diferentes. Em 2014 tivemos cinco semanas de cobertura noticiosa com 111 destaques para 12 mortes e agora, em apenas seis dias, tivemos 90 destaques noticiosos com 4 mortes.

Para muitos dos que escrevem nas redes sociais a conclusão parece óbvia: a comunicação social tem alguma coisa contra este governo. No entanto, essa poderá ser uma conclusão precipitada. Antes de passarmos à argumentação, propriamente dita, vale a pena relembrar o leitor que os jornalistas são profissionais, mas que não deixam de partilhar o quotidiano com todos os outros cidadãos e, como tal, vivem as mesmas dúvidas e quotidiano que todos nós.

As lógicas das notícias não vivem apenas dos temas, mas também dos contextos históricos de cada momento, do contexto dos acontecimentos e da experiência adquirida pelos órgãos de comunicação social face ao tema. Daí, que valha a pena, na semana em que a atenção dada à Web Summit iguala o Futebol e a segurança nos locais nocturnos destronou a atenção dada aos incêndios, centrar a nossa atenção no surto de Legionella.

Há várias hipóteses para explicar o porquê da cobertura da Legionella em 2017 ser tão mais presente do que a realizada em 2014.

O momento político em 2017 é diferente do momento político de 2014. Em 2014 estávamos ainda nos anos de chumbo da Troika, a esperança na melhoria das condições de vida era ainda uma miragem e, consequentemente, o surto em Vila Franca de Xira era apenas mais uma má notícia entre os problemas dos défices, dos cortes na saúde, na educação, nos salários, o desemprego e tantas outras preocupações do nosso quotidiano. De alguma forma, a notícia do surto de Legionella era a confirmação dos problemas gerais do país. O contrário sucede em 2017. Os últimos dois anos foram anos de melhoria generalizada das condições negativas que caracterizaram o período anterior - algo que, pelo menos no essencial, todo o hemiciclo parlamentar parece reconhecer. Nesse contexto de melhoria, sempre que surge um problema grave, como o surto de Legionella, a atenção dada é também maior, pois o problema vem questionar as nossas certezas sobre o que está efectivamente melhor – em particular depois das mortes e devastações causadas pelos incêndios florestais dos últimos meses.

Há também que ter em atenção o contexto espacial da notícia, ou seja, tudo parece mais grave e pior quando ocorre num hospital e não numa fábrica, como em 2014. Os hospitais são locais para nos curarmos, não para adoecermos, ou pelo menos é essa a nossa percepção – embora as infecções hospitalares façam parte do quotidiano das unidades de saúde e sejam, como tal, combatidas permanentemente.

Depois há o contexto político de 2017, no qual a oposição ao governo centrou a sua acção no criar da dúvida sobre a capacidade do Estado (que aqui se associa sempre a governo) ser capaz de resolver problemas complexos, como os incêndios. Logo, quando o problema seguinte ocorre num hospital público, dá-se também o reforço dos argumentos esgrimidos na luta política. É claro que tudo o que acontece em 2017 é produto, também, do que se decidiu e fez em 2014, mas essa é uma dimensão que não nos influencia tanto na construção da atenção dada aos destaques noticiosos – em particular porque a saída da liderança do PSD por Pedro Passos Coelho retira espaço ao contra-argumento político de que a Legionella nos hospitais é produto dos cortes na saúde iniciados com a Troika (uma dúvida difícil de esclarecer mas que estará sempre na mente de jornalistas e cidadãos).

Por último, como lembra uma comentadora da realidade política nacional, a cobertura da Legionella ocorre na mesma semana em que o país celebrava o futuro e a modernidade com os robôs, Apps e Start ups. Fazendo-nos, assim, lembrar que uma simples bactéria pode ameaçar a complexidade das nossas escolhas e do nosso quotidiano e que, talvez, não seja possível celebrar o futuro sem estarmos permanentemente a consolidar o presente e a impedir o passado de regressar.

Termino com a constatação de que dizer que há uma conspiração contra este ou o governo anterior pode ser reconfortante mas a realidade é sempre mais complexa, mesmo que não nos apeteça muito pensar nisso.

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.