Durante as últimas duas décadas múltiplos investigadores nacionais, destacando-se colegas da Universidade do Minho e da Escola Superior de Comunicação Social, participaram em estudos comparativos das notícias portuguesas com as de outros países. As conclusões desses estudos permitiram perceber que, embora haja lógicas comuns no jornalismo, há também identidades próprias do jornalismo e que as nossas notícias são tão “nossas” quanto as dos outros são “deles”.

Se olharmos para os últimos seis meses portugueses nas notícias percebemos que não há sempre um mesmo pódium pois os temas e os protagonistas mudam. Se os destaques dos primeiros três meses de 2017 foram dominados por Marcelo Rebelo de Sousa, já os segundos foram de António Costa, com Pedro Passos Coelho a ter um “trambolhão” na atenção dos media, mas mantendo o terceiro lugar.

E quanto aos partidos? Quem “mandou” na atenção de jornais, rádios, televisão e Internet? O primeiro semestre foi liderado pelos destaques atribuídos ao PSD, seguido pelo Bloco de Esquerda e, num distante terceiro lugar, pelo PS. No entanto, no segundo semestre a “realidade” noticiosa transformou-se, porque o Partido Socialista mantendo quase a mesma atenção subiu ao primeiro posto nacional e as descidas do PSD e BE alteraram radicalmente as “medalhas” dos destaques.

Quanto aos temas das notícias, a realidade do quotidiano molda efectivamente a “realidade” das notícias, remetendo as teorias das manipulações para o domínio da ficção. Senão, vejamos. Entre semestres os fogos florestais subiram 167 posições no ranking para dominarem nos últimos três meses o top 3 dos temas em Portugal. O segundo trimestre foi também o tempo da insegurança e atentados terem regressado aumentando em 50% às notícias. Com Macron o nosso olhar voltou-se para a França e a(normalidade) da presidência Trump conquistou-nos levando os EUA a uma queda de 170% na nossa atenção.

Por sua vez, as notícias sobre a banca e o crime económico desapareceram do nosso quotidiano, sendo (quase) substituídas pelas celebrações religiosas e pela cultura com Fátima e a Eurovisão a darem cartas.

Os últimos três meses foram também tempo de percebermos que as preocupações com o défice alto, juros altos e a arrecadação de impostos desapareceram do nosso quotidiano,  dando lugar às boas notícias sobre trabalho e emprego e à preocupação com a saúde e os cuidados médicos.

E há algo que nunca mude em Portugal? Há. O Futebol lidera e, tudo indica, que continuará a ser no futuro próximo o líder da atenção jornalística junto, obviamente, com um tema que crescerá nos próximos meses, as eleições autárquicas.

Parafraseando Eduardo Lourenço, se achamos que somos uma ilha (mesmo não o sendo) então somos uma ilha onde tudo arde no verão mas onde, apesar dos desastres, continuamos focados no campeonato de futebol e onde os grandes males públicos do passado (como os males da banca ou o crime económico) não nos conseguem prender a atenção - desde que haja trabalho e a saúde se vá aguentando.

Se não somos uma ilha parecemos mesmo, pois o mundo é um lugar distante deste Portugal das notícias que nos molda o quotidiano.

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.