A República é feita da política, da tragédia e sucessos partilhados por muitos mas também da vida de homens e mulheres que marcam pela sua presença, palavra e actos o nosso quotidiano. As notícias desta semana são um misto de tudo isso. Temos, por exemplo, aqueles temas que desejávamos nunca terem sido notícia, como os dos incêndios. Temos uma semana de notícias que tendo começado por ser sobre a desgraça que se abateu sobre o país depressa se tornaram paradigmáticas de um dos grandes temas da nossa contemporaneidade: a privacidade.

Depois das notícias sobre a destruição, sobre as vítimas, sobre as responsabilidades e sobre o que fazer, discute-se sobre o que é a privacidade à luz do relatório dos incêndios de Pedrogão, tal como antes se fazia sobre o Facebook.

Pedrogão é um caso difícil de catalogar como de “privacidade” mas é talvez um dos momentos chave para esta discussão central para o nosso futuro. A junção de declarações de diferentes partidos sobre o assunto, junto com as críticas de professores universitários à decisão, mais a curiosidade e interesse dos jornalistas em divulgar o que é proibido e, por fim, o entendimento da missão da comissão nacional de protecção de dados sobre o que é proteger, criou um daqueles raros momento em que se definem paradigmas. Pois, as fronteiras da privacidade são hoje mais ténues do que quando muitos declararam que, com o Big Brother e com o Facebook, tal coisa havia terminado. Daí, que talvez fosse hora de nos preocuparmos menos com o que é juridicamente privacidade e mais sobre o que é socialmente a reserva e, já agora, o que cada um acha que ela é ou deve ser.

A semana foi também de aprovação de orçamento, de celebração de aniversário de governo, de discussão sobre mudanças de opinião de última hora, como as do PS face à taxa energética do Bloco e até, do bizarro, como o voto contra do PCP ao voto de pesar pela morte de Belmiro de  Azevedo.

Foi nesta semana que dois homens que marcaram, pelo menos, o nosso quotidiano dos últimos trinta anos faleceram: Zé Pedro dos Xutos e Pontapés e Belmiro de Azevedo da SONAE. Xutos e SONAE são marcas com que todos crescemos mas o que conta mesmo são os nomes e não tanto as marcas. A música de Zé Pedro, os investimentos de Belmiro de Azevedo e a opinião expressa por cada um marcaram-nos, de forma diferente é certo, mas fizeram tanto quanto os governos destes últimos trinta anos para a formação da nossa ideia de República.

A semana terminou com a candidatura de Mário Centeno a Presidente do Eurogrupo. E com muitos de nós a pensar que, se Passos Coelho nos marcou pela sua governação sob o mandato da Troika e se Costa assinalou o segundo aniversário de um governo em época de libertação de Troika, poderá acabar por ser Centeno a criar a grande ironia da década. A ironia de vir a ter como Presidente do Eurogrupo, que ditou as nossas penitências, alguém que faz parte de um governo que assenta na recusa das políticas de penitência. Mas, mais do que uma ironia, tal poderá vir a ser apenas mais um sinal das crises de uma Europa que parece injusta, inconsequente e confusa há dez anos.  

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Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.