O outono está à porta e o verão quase a acabar. E depois de meses marcados pelos fogos em Portugal, agora é o vento e a água do furação Irma no outro lado do Oceano a inundar as notícias portuguesas. São desastres naturais, mas cujas consequências e origens também implicam uma forte componente de decisão humana. 

Como no caso dos fogos por aqui, o furação que alastrou os países centrais da costa atlântica americana afetou sobretudo os territórios mais sensíveis e frágeis, e sobretudo as populações mais vulneráveis. As diferenças económicas e a geografia da exclusão social aqui como lá estão na base do diferente embate que eventos como estes têm. 

Há depois a questão das decisões. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, o Irma foi o mais forte furação de sempre no Atlântico. Se na comunidade científica parece haver consenso sobre o papel das alterações climáticas em eventos como este, as posições negacionistas da administração Trump são bem conhecidas. E o presidente americano desviou todas as questões sobre este ponto nas entrevistas que deu nestes dias. Pouco presente nas notícias portuguesas relacionadas com o tema, este seria talvez o aspeto sobre o qual mais valia a pena discutir. 

O fim do verão traz outras notícias. Não é apenas o ano letivo a arrancar, mas também a estação das lutas sociais. Menos mediática das grandes manifestações de há pouco anos – e muito provavelmente com menos ‘simpatia’ entre os cidadãos – a greve dos enfermeiros de quatro dias atingiu uma adesão de 80-90%. Já em 2016, o ano com menos greves da década, estes trabalhadores foram os que protestaram mais, o que põe em evidência como o setor da saúde continua a sofrer das restrições orçamentais impostas com a austeridade (sobretudo a partir de 2013) e ainda não repostas.
 

Gráfico:

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.