Será que chega conseguir que os portugueses vejam notícias ou leiam manchetes para influenciar a sua opinião? Esta é uma velha discussão ou talvez não o seja, pelo menos em Portugal. O argumento é o seguinte: as notícias não nos tocam a todos da mesma forma, mesmo que o jornalismo o deseje ardentemente e os homens e mulheres de poder, por vezes, desejem que as notícias que surgem sejam negativas para os seus oponentes. 

A última semana poderia ser utilizada para descrever a situação política nacional como em ebulição, em particular para o governo. Senão vejamos, temos roubo de armas dos paióis em Tancos, viagens de governantes pagas por uma empresa petrolífera, uma remodelação governamental e a inversão das práticas da polícia que, em vez de proteger, incrimina.

No entanto, embora estejamos em período de pré-aquecimento para o jogo eleitoral das autárquicas, também podemos argumentar que, o que pode ser descrito como uma semana do “diabo” para António Costa e o seu governo, poderá passar sem deixar cicatrizes muito profundas e debilitantes. Porquê? Porque se assumirmos que os públicos não estão livres de estereótipos através dos quais leem as notícias, veríamos que Tancos é lido muito mais em função da incompetência dos militares (embora muitos de nós valorizem a instituição militar, muitos portugueses veem-na como demasiado displicente e sobrevalorizada), já quanto às viagens da Galp o estereótipo diz-nos que os políticos são todos malandros mas venderem-se por um jogo de futebol da seleção é coisa pouca (e para alguns o que se não perdoa é o não ter sido o “próprio cidadão” a ir na viagem em vez do político), quanto à remodelação o estereótipo diz que o que conta são os ministros, se esses não rolam, secretários de estado pouco importa. Por último, infelizmente, também há um estereótipo racista enraizado na nossa sociedade pelo que, embora se ache que a polícia agiu mal, a desculpa está também pronta nas mentes de muitos, só porque foi na Cova da Moura e não na Avenida de Roma ou na da Boavista.

Chegado a este ponto da análise, importa salientar que tudo o que está nas notícias é grave para o país. Mas, importa também salientar que a população pode escolher não se preocupar em demasia com essas ocorrências ou, no limite, decidir falar sobre elas, mas não ver motivo para alterar a sua próxima decisão de voto em Setembro.

Numa perspetiva mais académica, vale a pena lembrar-nos a todos que os efeitos das notícias nas populações obedecem a uma lógica em que o contexto histórico vivido e a identidade sociocultural do telespectador, leitor ou ouvinte são fundamentais para a interpretação do que lhe é dado a conhecer. O exemplo típico é o das notícias sobre um político que se aprecia e perante o qual, apesar das notícias negativas, não se processa uma mudança de opinião. Isto acontece também na Era da Informação, talvez ainda mais do que antes, pois o que verificamos é que as pessoas buscam nas redes sociais notícias que validem as suas certezas, os seus gostos e preferências e não aquelas que as ponham em causa.

Não foi tema do Top do Barómetro, mas vem a propósito, nesta semana as redes sociais e páginas de jornais viveram também uma ebulição a propósito de uma página do Facebook, Os Truques da Imprensa Portuguesa. Os autores dessa página, jornalistas e cidadãos, entraram numa acesa discussão a propósito das notícias que produzimos - o que demonstra a importância do jornalismo, mesmo que todos o leiamos de forma diferente.

Vivemos um tempo complicado para o jornalismo e para as democracias, mas só se o percebermos poderemos aspirar a fazer algo para manter o jornalismo livre de preconceitos e as audiências livres de estereótipos.

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.