O quotidiano é o nosso dia a dia, são as alegrias e as preocupações que nos alimentam. A comunicação, tal como sugeria o saudoso Paquete de Oliveira, é indissociável daquele porque dá forma também ao que se passa. É, por isso, que as notícias são, por vezes, espelho do quotidiano dos cidadãos e outras vezes desmentem esse quotidiano - para os estudiosos da comunicação fará mais sentido falar de o jornalismo marcar a agenda do que de o jornalismo desmentir o quotidiano, mas o processo é o mesmo.

Esta semana é particularmente curiosa e deveria poder ser usada como exemplo quando quisermos falar de notícias e destaques.

Se dividirmos as notícias da semana em dois conjuntos verificamos que temos notícias que “espelham o quotidiano” dos cidadãos (sobre estado da saúde, preocupação com a educação, custos do arrendamento, valor das reformas, custo da energia ou futebol) e depois aquelas que “desmentem o quotidiano” porque criam atenção para o que não estava antes presente nas nossas preocupações ou que, já estando, nos apresentam uma narrativa diferente. Ou seja, aquelas notícias que desmentem as nossas anteriores certezas tendem a centrar-se nos acontecimentos que estão mais distantes e nas personagens políticas, económicas e culturais que vivem em mundos mais distantes do nosso.

Os destaques desta semana, que tendem a desmentir o nosso quotidiano, foram, por exemplo, a forma como o discurso do Presidente da República foi apresentado, como a situação na Catalunha foi retratado, como a liderança do PSD foi discutida ou, ainda, como as autárquicas foram analisadas.

Façamos uma breve incursão sobre algumas dessas notícias que desmentem o nosso quotidiano, pois há diferenças entre elas. Uma categoria típica das notícias que desmentem o quotidiano está presente na cobertura do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente faz um discurso em que tenta tocar o quotidiano dos portugueses (até lembrando os professores que estavam prestes a manifestar-se na praça do município, apenas aguardando o terminar da cerimónia), mas também o escreve de forma a que os jornalistas possam descortinar na escrita mensagens subentendidas que permitam, depois, a análise dos equilíbrios políticos entre partidos no pós-autárquicas, etc.

Mas também temos outro tipo de destaques noticiosos para desmentir o quotidiano. Sabemos, por exemplo, que as pesquisas no Google sobre autárquicas foram em grande medida sobre os resultados dos locais onde os cidadãos votaram, mas as notícias foram maioritariamente sobre a leitura “política nacional” dos resultados. Precisamente, o nível em que os cidadãos menos haviam demonstrado interesse direto nas suas escolhas quotidianas de busca de informação. Aliás, o exemplo máximo foi a atenção dada nas pesquisas na Internet à vitória eleitoral de Inês de Medeiros em Almada, enquanto que jornalisticamente a atenção foi centrada em Fernando Medina e Rui Moreira.

A Catalunha e a possível declaração unilateral de independência surge também como um desmentir do quotidiano de todos os que em turismo já a visitaram ou que seguem os jogos do Barcelona, pois mostra-nos uma sociedade em potencial desagregação e, por tão perto de nós estar, cria a sensação de que a placidez do nosso quotidiano não nos garante nada face ao futuro.

De todos os exemplos com que diariamente lidamos talvez o mais claro tenha sido exemplificado por Tom Petty e a sua música “Free Fallin”. Enquanto Tom Petty ganhava na web em comparação ao ataque terrorista em Las Vegas, nos destaques noticiosos o tiroteio liderava do top cinco noticioso da semana.

Fica a pergunta sobre se o jornalismo deverá ser na sua essência um “desmentido” do quotidiano ou, se pelo contrário, necessita de se reequilibrar na sua relação com ele.

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.