Há vários anos atrás um ex-ministro canadiano dizia-me, a meio de uma conversa, que na sua opinião era suicídio político um político meter-se com os professores e os seus sindicatos. Não faço ideia sobre se teria razão ou não, mas relembrar neste barómetro essa referência permite-me exemplificar de forma fácil como construímos a nossa realidade face a um dado assunto, neste caso o tema mais presente nesta semana de notícias. Nesta semana, se somarmos os temas do tempo de serviço dos professores, ensino superior e da morte de uma professora no Montijo, tudo aquilo que versa os professores apenas fica atrás da soma de e-toupeira no Benfica, eleições no Sporting e do futebol em geral.

Cada um de nós tem a sua ideia sobre os professores, se têm culpa de algo ou não, se são bem pagos ou não, se faltam muito ou não, se ensinam bem ou não. Mas como se constrói essa ideia? Se todos fomos alunos também todos temos uma opinião sobre professores. Enquanto pais de alunos todos experimentamos sentimentos contraditórios, ora de apoio ao trabalho dos professores ora de queixa sobre o mesmo trabalho. Tudo isso constrói uma dada realidade social face aos professores. No entanto, essa é apenas uma parte dessa construção social. Depois, falta toda aquela que experimentamos através da mediação dos ecrãs, via as notícias que lemos, ouvimos e vemos e que origina uma realidade socialmente mediada. Ou, pelo menos, ao longo de um século assim foi. Hoje, o conjunto de opiniões criadas na primeira pessoa e de notícias alimenta também, por sua vez, a opinião dada nas redes sociais, a qual regressa, depois, às notícias num ciclo não finito que cria a nossa realidade aumentada.

No entanto, a pergunta interessante de formular é a de saber se a realidade socialmente construída através das notícias e redes sociais é capaz de nos fazer mudar de opinião sobre uma dada classe profissional, como a dos professores?

Não há uma resposta direta para a pergunta, mas há respostas parciais. Se fizermos uma analogia com o que se passa com políticos e futebolistas podemos concluir algumas coisas. Em primeiro lugar, que para se ter uma opinião sobre uma classe profissional tem de existir também, paralelamente, uma construção de celebridades individuais. Tal, ocorre tanto com os nossos políticos como com os nossos futebolistas, mas não com os nossos professores.

Em segundo lugar, que para generalizar uma opinião negativa sobre uma classe profissional, talvez tenha de existir também uma fraca polarização de opiniões. Por exemplo, em Portugal, no futebol a polarização clubística é muito elevada, mas a polarização política partidária é relativamente baixa. Talvez, daí ser possível ouvir-se que os políticos "são todos uns malandros" mas sobre os futebolistas apenas existirem opiniões (e palavrões) contundentes sobre dados jogadores e não uma má opinião criada sobre o seu todo profissional.

Como não há na comunicação social uma prática institucionalizada de criação de professores celebridades, excetuando o caso excecional do "político-professor", também será difícil imaginar que se venha a construir uma realidade socialmente aumentada que nos faça mudar de opinião sobre a classe profissional dos professores -  seja essa opinião individual qual ela for.

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e conta com a colaboração de Leonor Cardoso e Carla Mendonça. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.