Se a semana passada foi para os portugueses uma semana focada na nossa casa, Portugal, com a visita do Papa e as vitórias do Benfica e de Salvador Sobral, esta semana foi, pelo contrário, uma semana em que olhámos para o Mundo. Esse olhar foi feito de um misto de tristeza, preocupação e alegria.

Por um lado, olhámos para o Brasil com um misto de preocupação e esperança de que a situação política e social não degenere num quotidiano de violência, como o venezuelano. Por outro lado, fixámos o olhar em Manchester. Obviamente, sempre que ocorre um atentado com vítimas na Europa a nossa atenção viaja até esse local, seja ele Paris, Bruxelas ou qualquer outra cidade.

No entanto, para Portugal este atentado representa mais do que podemos pensar no primeiro momento. Tratou-se de um atentado num concerto na semana imediatamente a seguir à vitória portuguesa na Eurovisão e, simultaneamente, aproxima-se a época de festivais e concertos de verão em Portugal. A conjugação desses dois factos deslocou a cidade inglesa para uma maior proximidade emocional aos nossos quotidianos.

A essa dimensão simbólica juntou-se uma terceira constatação, a de que nem só as capitais podem ser alvos de ataques terroristas. O terror e o terrorismo actuam numa conjugação de violência física e simbólica e, desta vez, esse simbolismo atingiu-nos em cheio no nosso quotidiano, mesmo que ainda não tenhamos tomado plena consciência desse facto.

A segunda palavra da semana, se pudéssemos escolher uma, seria "atenção". Por um lado, a busca de atenção mediática que acompanhou Trump no seu périplo pelo Médio Oriente e pela Europa, visível nas imagens perante o Papa e nas fotos de "família" com chefes de governo europeus. No entanto, as palavras não ditas na NATO, que darão manchetes em casa, também levarão alguns republicanos e agências de informação dos EUA a questionar até que ponto a Casa Branca não estará a tornar-se demasiado parecida com o título de um celebre filme de espionagem, com parte do enredo passado em Lisboa, e que tinha o expressivo título de “A Casa da Rússia”.

Por outro lado, tivemos o défice de atenção dado ao final do procedimento por défice excessivo, afastado do topo da lista de temas noticiados (4º lugar), e da fraca atenção dada ao forte crescimento económico (9º lugar). Algo que nos leva a constatar que, psicologicamente, os jornalistas e os portugueses em geral quererão definitivamente deixar para trás a normalidade do "tudo corre ou vai correr mal" para abraçarem um quotidiano com uma nova normalidade positiva e certeza de que "tudo vai correr bem".

A semana também trouxe para Manchester e para Portugal, por força da nacionalidade do treinador do United, alguma alegria para, por momentos, afastar o medo e a tristeza. Mourinho deu mostras de ser capaz de voltar ao seu melhor e de provar que, mesmo no meio da adversidade, Manchester pode também ser sinónimo de vitória. Pelos bons e maus motivos, esta foi mesmo a semana da cidade inglesa “by the sea”.

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.