A independência catalã foi o centro da atenção mediática da semana. Eventos como a fuga do governo catalão, as manifestações contra a independência, as reações internacionais sucedem-se numa aceleração da história. Há depois elementos substanciais, como a legitimidade de todo o processo de declaração de independência, que se confronta com a legitimidade dos instrumentos usados pelo governo central para o bloquear: a violenta repressão contra os eleitores, a destituição do governo local, a aplicação, pela primeira vez desde 1978, do artigo 155.

Se não for uma crise de Estado, tem muitas características dela. A legitimação das instituições de um país não depende apenas das suas leis e do suporte pelos cidadãos, mas também do mútuo reconhecimento por parte das outras instituições e do monopólio do uso da violência.

Vemos agora que estes últimos elementos estão a desmoronar. A ação dos Mossos d’Esquadra em defesa dos cidadãos catalães contra a Guardia Civil no dia do referendo fala por si, assim como a tentativa do governo de Madrid de pôr os Mossos sob o seu controlo. E, por fim, há o facto de a constituição espanhola – e a forma como se chegou a ela, através de uma transição pactuada em que muitos no país não se reconhecem – nunca foi consensual. Neste contexto, a ausência de negociação e o uso da força como única estratégia parecem mais sinais desta fragilidade do que formas para a resolver.

As reações da administração norte-americana face ao ataque em Nova Iorque – terceira notícia do barómetro – vão numa direção parecida, sobretudo com a afirmação de Trump de que os Estados Unidos devem ser ‘muito menos politicamente corretos’, em que não é difícil identificar o eco da retórica da Alt-Right.

Enfim, comprimido entre estas manifestações de força, o futebol resiste na segunda posição, ganhando o prémio da resiliência no barómetro das notícias. 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.