Pode parecer uma coincidência mas, certamente, não o será. Nos destaques noticiosos desta semana, mais de 50% das notícias dizem respeito a incêndios. O valor deste tema até aumenta face à semana anterior.

Em primeiro lugar os verdadeiros incêndios, aqueles a quem se pede às populações para serem resilientes e proativas, mas que deixaram uma boa parte deste pequeno retângulo à beira mar plantado (estranha contradição, esta) em tom cinzento escuro, cor difícil de apagar nos próximos tempos, apesar do poder regenerativo da natureza. Os próximos dias continuarão a não ser fáceis. Prevê-se que a temperatura vai continuar a subir… que estranhas estão as estações…, o IPMA prevê ventos fortes, calor e humidade baixa, e esta salada maquiavélica aumenta dramaticamente o risco de incêndios.

Estes verdadeiros incêndios também provocaram uma chama política nunca antes vista desde a tomada de posse deste Governo. Desde a moção de censura proposta pelo CDS, que procura lavar as mãos de responsabilidades que deviam ser partilhadas por todas as forças políticas, também se pergunta se o que parecia ser um namoro sólido e sem ressentimentos entre Governo e Presidente da República terá tido aqui um volte-face difícil de contornar. Esta questão já vinha de trás, desde o discurso de Marcelo, mas o “Acção Socialista”, jornal oficial do PS escreve esta semana que “a esquerda deve estar unida e coesa, para impedir esta caminhada preocupante e perigosa, combatendo a tentação presidencialista de Marcelo (…)”. A ver vamos o que tal significará nas relações futuras entre os dois órgãos de soberania.

A moção de censura não passou mas foram quentes os momentos vividos no Parlamento, com o Bloco de Esquerda, do lado da Geringonça, a fazer o seu papel e a apontar críticas ferozes à forma como o Governo geriu, desde Pedrogão, esta realidade com que o país se confronta desde junho.

Entretanto, num Portugal onde nunca houve uma visão estratégica para a Agricultura e Florestas, onde nunca existiu lealdade nem coerência política longitudinal, o que significa que qualquer novo Governo podia e tinha uma visão diferente sobre o tema e que, em nenhum caso, foi disruptiva para garantir alterações estruturantes ao cenário que, repetidamente, vivemos, pedem-se agora medidas políticas sérias – que têm que ir para além da demissão do Ministro responsável pela tutela – que permitam uma mudança de paradigma na forma como se olha para o tema. Ou, definitivamente, passar a olhar para o tema e colocá-lo, tal como nos destaques noticiosos, no top das prioridades governamentais. E, tal como em tantos outros casos, solidariedade política em temas fraturantes deseja-se.

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.