As tragédias nacionais têm mais repercussão que as alegrias nacionais na comunicação social, essa parece ser uma norma que o incêndio de Pedrogão Grande não desmentiu.

Desde novembro de 2015 que não havia um tema a conseguir tanto destaque na comunicação social. A última vez que tal aconteceu, na análise semanal do Barómetro, estávamos na semana de 14 a 20 de novembro de 2015 e, na altura, foram os atentados em Paris que representaram 63% dos destaques noticiosos portugueses. A título de comparação, na semana em que Portugal se sagrou campeão europeu de futebol o tema representou apenas 32% dos destaques.

No entanto, no campo da dolorosa contagem de vítimas de catástrofes, Pedrogão Grande não destronou a tragédia de Alcafache ocorrida em 1985 e que teve origem no embate entre dois comboios de passageiros da CP. O número exacto de vítimas nunca foi consensual, embora as estimativas e dados oficiais de mortos e desaparecidos os situem entre as 100 e as 150 pessoas.

O incêndio de Pedrogão Grande, tal como o incêndio no prédio em Londres na semana anterior, irão ter aproveitamento político e as baterias estarão apontadas ao governo, pelo que o tema do incêndio tem todas as características para perdurar nos destaques. Como todas as tragédias, também esta teve os seus insólitos, desta vez, com origem em Espanha e num jornalista actuando sob pseudónimo. A actuação desse jornalista, ao criar Fake News sobre a realidade política portuguesa, fez a sempre polémica discussão sobre a cobertura noticiosa dos incêndios ganhar novas dimensões. Nomeadamente, pelo facto de o “El Mundo” ser um jornal de conotação política próxima do actual governo de direita em Espanha e a crítica ser dirigida a um governo de esquerda em Portugal.

Mas a semana noticiosa não foi só feita da tragédia de Pedrogão Grande. Pois, enquanto em Portugal se discutia se o Porto é, ou não, uma localização possível para ser o melhor local de acolhimento da Agência Europeia do Medicamento, lá fora tudo indica que o destino será ou Lille, pelo peso da indústria farmacêutica na França e Alemanha, Barcelona por, tal como Londres, ser verdadeiramente cosmopolita ou um país do leste Europeu porque, desde o alargamento, há esse desejo. Porque não estamos em nenhuma dessas categorias pode ser bastante difícil ganhar a Agência, pelo que entretanto a nossa atenção continuará no Futebol, onde se pode ganhar algo, bem como no défice, onde os 2,1% do primeiro trimestre fazem parecer os anos negros da Troika e dos défices muito para lá dos 3% uma memória longínqua equiparável à de outros períodos negros da história nacional. 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.