Há cerca de um mês, a propósito de incidentes ocorridos entre adeptos num dos jogos mais importantes da jornada (Benfica-Porto) alvitrei que se tratava de “um sinal preocupante (...) numa fase do campeonato em que os candidatos ao título irão disputar cada jogo como se de uma final se tratasse”. Estava, no entanto, bem longe de imaginar que o futebol, pelas piores razões, estivesse no topo da tabela desta semana. Os graves incidentes ocorridos no centro de estágios do Sporting Clube de Portugal, no dia 15, tornaram-se o acontecimento da semana, concentrando praticamente toda a atenção mediática e pulverizando outros temas. É notório, em particular, a forma como o ataque à Academia do Sporting desencadeou um fluxo intenso de notícias e comentários, enquanto os terríveis acontecimentos ocorridos na faixa de Gaza, no dia 14, data da inauguração da nova embaixada dos EUA em Jerusalém, foram perdendo importância, até praticamente se eclipsarem dos noticiários (ver gráfico sobre evolução dos principais temas da semana). Embora os dois acontecimentos tenham permanecido, por igual período, nos destaques noticiosos da semana (ver gráfico sobre a longevidade dos destaques da semana) a concentração de destaques noticiosos e comentário sobre os incidentes domésticos no centro de estágios de um clube de futebol praticamente eclipsou os violentos confrontos na Faixa de Gaza que resultaram na morte de mais de meia centena de palestinianos. 

Tudo afasta, e tudo aproxima estes dois acontecimentos. O que os aproxima é o facto de ambos terem descambado em situações de violência. As manifestações na faixa de Gaza no dia da inauguração da embaixada desencadearam uma repressão brutal do exército israelita contra os manifestantes; o facto de o Sporting não ter garantido o 2º lugar no campeonato desencadeou o ataque a jogadores e equipa técnica. Aproxima-os, também, o facto de, nas imagens televisivas e fotos vermos homens de rosto coberto, num caso a usar fundas para atingir os bem armados soldados israelitas, no outro caso uma horda de vândalos a invadir o centro de estágios do clube. Terão sido cerca de 50 vândalos e terão sido cerca de 50 (ou mais) os palestinianos abatidos pelos tiros dos soldados israelitas. Na origem dos confrontos estão líderes (Trump e Bruno de Carvalho) que, salvaguardadas as respetivas distâncias, cultivam estilos de liderança e de comunicação com os seus adeptos assustadoramente parecidos.

E é neste ponto que as diferenças e as aproximações se tornam problemáticas e preocupantes, na medida em que revelam, ou são sintomas, do mundo que as notícias nos trazem para dentro de casa. Num lado temos uma notícia doméstica em que 50 vândalos organizados decidem punir e castigar os que, durante a época foram os seus ídolos e, no outro, a notícia de que mais de meia centena de palestinianos em protesto contra a ocupação israelita, munidos de pedras e fundas, são abatidos por tiros certeiros. Pedras contra balas. Tabefes, pontapés e golpes de armas brancas contra chuteiras e fatos de treino. Os territórios palestinianos tornaram-se em imensas prisões a céu aberto, lugares de confinamento onde se sobrevive com quatro horas de eletricidade por dia e onde a água que corre nas torneiras não é potável. É difícil imaginar como se pode sobreviver nessas condições, é um mundo demasiado longínquo da nossa experiência quotidiana. Mas, mais perto de nós, achamos normal que enormes dispositivos policiais sejam mobilizados para controlar e confinar adeptos e claques dos clubes em confronto. Achamos normal o nível de violência verbal que é a regra nas incontáveis horas que várias televisões dedicam ao comentário dos jogos e ao comentário sobre o comentário. Achamos normal que o mundo de futebol domine a agenda mediática, de forma desproporcionada, e achamos normal que tudo isto continue na mesma porque se trata de um mundo onde se misturam e para onde confluem os vários poderes, o político e o financeiro. Após os incidentes logo se veio a saber que há uma lei sobre violência no desporto há cerca de um ano no limbo dos gabinetes. A quem interessa este lodaçal? 

O título deste comentário é, propositadamente, uma evocação do discurso que Salgueiro Maia terá feito às suas tropas antes de avançar em direção ao Terreiro do Paço para depor o governo fascista de Marcelo Caetano. Terá dito: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!(…)”. Claramente precisamos de uma revolução no mundo do futebol que ponha cobro ao estado a que chegámos.

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Sofia Barrocas e Inês Balixa. Apoios: IPPS-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.