Pela segunda semana consecutiva o resgate dos jovens tailandeses esteve no topo da atenção mediática. Vimos mergulhadores altamente especializados tentando equipamento de mergulho ao limite e tivemos até Elon Musk, dono da Space X e da Tesla, apresentar um mini-submarino para o resgate. Quando Elon Musk fala ou age publicamente isso tem uma tradução económica e empresarial, mesmo quando a tecnologia não pode ser utilizada, como neste caso. Na nossa sociedade agir ou falar publicamente valoriza a visão dos inovadores e, consequentemente, aumenta o valor dos seus produtos. É o capitalismo comunicacional a funcionar em pleno.

Uma outra notícia da semana foi Ronaldo, ou melhor, quando é que Ronaldo não é notícia? No entanto, a sua transferência para a Juventus de Turim, propriedade da família Agnelli (os mesmos donos da FIAT) levou a um anúncio de greve dos trabalhadores da marca automóvel. Porquê? A resposta é simples e pode ser feita em jeito de pergunta: se se contrata um trabalhador como Cristiano Ronaldo, por milhões de euros, em quanto se prejudica os outros trabalhadores, os do sector automóvel? As empresas quando detém diferentes sectores de atividade, ainda por cima tendo-as todas cotadas em bolsa, estão ao alcance de impactos (in)diretos de uma atividade sobre as restantes. Quando se investe de um lado pode-se argumentar que se desinveste de outro. O futebol rende mais que os automóveis? Pelo menos no curto prazo, ou seja, enquanto Ronaldo estiver em condições para jogar. Nesta semana as ações da Juventus subiram, as da FIAT desceram e a razão foi a mesma, um jogador de futebol chamado Cristiano Ronaldo. Outro exemplo de capitalismo comunicacional, só que neste caso ganham os dois lados, a marca “CR7” valoriza-se nos mercados e a família Agnelli também. Mas no capitalismo comunicacional há também perdedores, aliás há sempre. Neste caso, os trabalhadores da FIAT, mas a norma no capitalismo comunicacional é haver também sempre quem nada ganha em ser parte de uma notícia, como no caso dos rapazes tailandeses e do submarino de Elon Musk.

A tecnologia assente em rodas, neste caso já não quatro mas duas, foi também notícia em Portugal. Na realidade, não foram as motas as protagonistas mas sim os seus condutores ou melhor os motards dos Hells Angels. Curiosamente, ou talvez não, também aqui há um protagonista (que tal como Cristiano Ronaldo faz sempre notícia) Mário Machado, só que não no futebol mas sim na criminalidade de base organizada, seja nos grupos de extrema direita, nas claques de futebol ou nos “gangues” de motards. No entanto, o mais interessante desta notícia não reside na dimensão criminal mas na económica.  Na realidade, não fossem as práticas criminais, estaríamos no caso dos “gangues” de motards perante um fenómeno económico que junta os melhores modelos de gestão. Senão vejamos, trata-se apenas de um modelo de franchise tal como no Macdonald’s ou Burguer King. Há gangues nos EUA que procuram franchisados em outros países, como Portugal, e o que assegura o sucesso dos seus franchisados é um certo grau de notoriedade, como surgir em relatórios de segurança internos, notícias (mas não em demasia) pois tudo isso ajuda a aumentar a vontade de adesão de novos membros (em busca de sucesso em atividades bem remuneradas) bem como a adesão mais fácil dos potenciais “clientes”, sejam eles os que pagam proteção ou os que compram “produtos” e serviços aos franchisados. Em cima de isto tudo, faz sentido que haja alguma consolidação dos ganhos realizados pelos franchisados num qualquer paraíso fiscal seguindo a cartilha de alguma empresa de consultoria fiscal que, como é normal, será contratada pelos detentores do franchise.

O capitalismo comunicacional desenvolve-se assente na comunicação do nosso quotidiano e a única coisa que é verdadeiramente importante é tomarmos consciência disso e, depois, decidir se tal como nos dados privados que damos às empresas de redes sociais de borla se queremos fazer o mesmo com Elon Musk, a família Agnelli ou com os Hells Angels.