Os mais velhos e, também, alguns das gerações mais novas, lembram-se ou terão ouvido falar dos três “F” de “Fátima, Fado e Futebol”, usados para descrever os pilares da gestão do quotidiano português durante a ditadura de Oliveira Salazar. 

Obviamente, trata-se mais de uma caricatura do que numa análise cientificamente baseada, mas que ilustra uma certa visão da nossa história recente.

A pergunta que hoje podemos fazer, e responder com maiores certezas, é que assuntos dominaram a atenção dos portugueses desde que 2017 se iniciou? A resposta já foi dada no título, mas necessita de ser melhor explicada. Pois, também nos diz algo sobre o que Portugal é, quais as nossas preocupações e o que mudou desde o fim da ditadura portuguesa.

Em primeiro lugar o que é imutável no quotidiano dos portugueses ao longo do século XX e agora no século XXI, ou seja, o papel do futebol nas nossas vidas. O futebol mantém a atenção jornalística numa lógica semanal associada às competições de clubes (e de vez em quando da nossa seleção). 

No entanto, o futebol hoje é, na nossa atenção, diferente daquele de há cinquenta ou sessenta anos. Nomeadamente, porque para além dos clubes e dos resultados, a criação de um sistema de celebridades mediáticas, que engloba jogadores, treinadores e dirigentes, levou a que um terço dos destaques noticiosos lhes sejam dedicados. 

Portugal, também, já não é hoje orgulhosamente sozinho, faz parte da União Europeia, já não tem colónias e, embora o Papa venha até Portugal e tenhamos o centenário das aparições, Fátima já não está no centro do nosso quotidiano. 

Em vez de Fátima temos Donald Trump, suplantando todos os protagonistas portugueses e todos os temas do nosso quotidiano. Ter Trump como notícia “número 1” em 2017 dá-nos por um lado, a noção de como é hoje central a nossa preocupação com o que se passa no mundo, como isso pode ter influência sobre nós, mas também como o “mundo” parece mudar com a eleição deste Presidente dos Estados Unidos.

Quanto ao Fado, embora tenha renascido com uma nova geração de artistas sempre presente nas rádios e concertos, foi definitivamente suplantado na nossa atenção por outro fado, neste caso entendido como o triste fado do destino das nossas poupanças. 

O primeiro tema nacional no “Top 10” deste trimestre de 2017 não foi nem a Taxa Social Única (TSU), nem as Offshores, mas sim a Caixa Geral de Depósitos. No entanto, a CGD não foi o único banco a contaminar toxicamente o nosso quotidiano, pois a lista de destaques quase que encerra com a atenção dada também ao estado do outro ex-grande banco português, o BES - agora Novo Banco.

Embora semanalmente tenhamos intervenções dos atuais protagonistas políticos (Marcelo, Costa e Passos) e haja toda uma atenção dada aos políticos que os portugueses amam odiar (Sócrates e Cavaco), neste trimestre apenas um político sobressai e ganhou a nossa atenção no quotidiano: Mário Soares.

A morte de Mário Soares marcou o início de 2017, tal como a chegada de Trump também o fez. E talvez, quem sabe, também marque uma mudança do nosso quotidiano político, económico e social. Se para melhor, pior ou simplesmente diferente só os próximos tempos e as notícias que ainda não aconteceram o podem responder.   
 

 

 

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 411 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.