Mais do que a ordenação dos resultados dos principais destaques noticiosos, o que chama a atenção é a forma como foram evoluindo ao longo da semana. O dado mais relevante é a diminuição progressiva da atenção concedida ao futebol, em especial ao Mundial, mas também à preparação da nova época doméstica, e a acentuada subida de destaques à operação de salvamento de um grupo de crianças encurraladas numa caverna na Tailândia. A semana fica ainda marcada, a nível nacional, pelas greves e anúncios de greve nos setores da educação, saúde e justiça e, a nível internacional, pela cimeira europeia de líderes europeus com agenda focada nas migrações forçadas e na crise dos refugiados.

As tragédias são para os media, e em particular para a televisão, um terreno fértil para a produção de notícias e emissão de longos diretos: incêndios, terramotos, desabamentos, descarrilamentos, acidentes rodoviários, desaparecimentos, naufrágios, a lista seria interminável. Há tragédias que resultam de causas naturais (como os terramotos ou as irrupções vulcânicas) e outras, como os incêndios ou o desabamento de um prédio ou de uma ponte, cuja causalidade pode derivar da ação ou da inação de pessoas concretas, de instituições ou estruturas de governo. Não se apuram responsabilidades pela ocorrência de um terramoto; já o desabamento de uma ponte com vítimas, como o que ocorreu há mais de uma década em Entre-os-Rios, dá origem a inquéritos, à assunção de responsabilidades e até à demissão de políticos. Há também uma categoria específica de tragédias, as humanitárias, um termo que habitualmente designa situações extremas em que a vida de milhares ou milhões de seres humanos está em risco seja como consequência de catástrofes naturais ou ambientais (seca extrema, por exemplo), seja em resultado da guerra ou de formas de violência dirigida contra segmentos da população de um país. Estas situações geram deslocamentos massivos de população, campos de refugiados e migrações forçadas. Nesta semana, em virtude da cimeira de líderes da União Europeia, o tema dos migrantes que atravessam o mediterrâneo recebeu atenção não tanto pelas situações dramáticas que se vivem no terreno, mas pelo ângulo político. São preocupantes os sinais de divisão dentro da Europa sobre esta matéria, em particular com o reforço que as posições anti-imigração e de endurecimento das políticas migratórias protagonizado pelo atual governo italiano. E, na Alemanha, a coligação treme pelas mesmas razões.

Há tragédias que, pelos seus contornos, parecem assentar como uma luva nas lógicas de cobertura noticiosa, em especial a televisiva. É o caso, esta semana, dos jovens e seu treinador (curiosamente o grupo é uma equipa de futebol) que ficaram encurralados nas entranhas de uma montanha junto ao mar, na Tailândia. A história tem todos os ingredientes para atrair os meios de comunicação de todo o mundo e gerar milhares de horas de emissão: dramatismo (estão vidas humanas, jovens, em risco), heroísmo (do treinador do grupo que consegue manter as crianças calmas e cuja história de vida foi exposta), risco e imprevisibilidade quanto ao desfecho (operação de salvamento em curso envolvendo meios humanos e tecnológicos altamente complexos e desconhecidos do grande público). Como nas tragédias (da antiga Grécia) temos protagonistas (o grupo de jovens encurralados), antagonistas (a monção que se anuncia, a subida das águas, a falta de oxigénio), coadjuvantes (as equipas de resgate) e o coro (pais, comentadores, repórteres, especialistas em mergulho). Faço votos para que o grupo de crianças e seu treinador regressem da caverna sãos e salvos.