Naquela primeira manhã de Maio, eu fui o primeiro a levantar-me. Olhei o azul radioso do céu, tomei o pequeno-almoço à pressa, e lá fui para a rua, um miudito, com dois amigos mais crescidos. Arranjámos um daqueles carrinhos dos varredores a sério, e ajudámos a limpar as ruas. Também fomos trabalhadores, a comemorar, perante olhares de amizade, fraternidade e felicidade, estampados nos rostos de tanta gente que víamos na rua, num ambiente de liberdade há muito prometido. ‘Maio maduro Maio... Quem te quebrou o encanto, nunca te amou’, cantou o Zeca. Se dessemos mais valor ao que conquistamos talvez não caíssemos tão facilmente em escândalos, possíveis crimes, corrupções, e futebolices.

O mundo da bola reina nas notícias, essencialmente pintado de azul, azul que vem do Norte, e domina o panorama nacional, com o F. C. Porto quase campeão. Mas nem só do Porto se fala, ou não fossem o Sporting e o Benfica, cujas equipas vão ter um jogo ‘decisivo’, os clubes que suscitam as maiores emoções, num clima de guerrilha e suspeição que não se pode ignorar. Em muito, joga-se pelo prestígio e pelos milhões que se anunciam, numa Liga europeia de mãos largas, nunca antes vista. E por falar em liga dos campeões, ou dos milhões, o nosso Ronaldo luta por mais um grande título europeu, ajudando a projetar Portugal. Em ano de mundial, o futebol inflama paixões e grandes negócios.

Talvez seja por isso, ou porque o clima de suspeição se tornou mais comum do que a chuva, que o dito caso Manuel Pinho não teve ainda maior protagonismo. Ao longo dos últimos anos, assistimos a um progressivo afastamento, descredibilização ou desapontamento com a política. Os sucessivos casos públicos que envolvem políticos têm um tremendo impacto. Esta 5ª feira, o primeiro ministro recorda-nos que “ninguém está acima da lei” e que, a “confirmarem-se” as suspeitas de corrupção, será “uma desonra para a democracia”. E, acrescentamos, para todos nós. Esperamos de um representante do Estado, em qualquer momento, um exemplo, para todos os cidadãos e cidadãs.

Agastados, sob um azul de Maio esmorecido, e enquanto 1968 e 1974 parecem longe demais, o ‘1º de Maio’ perdeu algo do seu encanto, e as tradicionais celebrações vão sendo afogadas em notícias sobre desemprego, emprego precário, ensino em remodelação, condições de habitação e arrendamento, transportes em ebulição, salário mínimo por acertar, e greves planeadas em diversos sectores, começando pela saúde, ou falta da mesma. Maio, quem te quebrou o encanto?

A nível nacional os incêndios e Pedrógão voltam à ordem do dia. O calor aproxima-se, e perguntamo-nos até que ponto muito do essencial ficou por clarificar, discutir, preparar e realizar, num país onde se deixa tanto por fazer, pois, amanhã, logo se vê. E lembro-me de Lobo Antunes: ‘Que farei quando tudo arde?’ Enquanto a nível internacional, o fogo cruzado e implacável dos conflitos armados nos revolta. Mas a possibilidade de paz entre ‘as Coreias’ é uma fonte de esperança. E para lá da Eurovisão, como canta Roger Waters, que em breve nos visita: ‘Is this the life we really want?’

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Sofia Barrocas e Inês Balixa. Apoios: IPPS-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.