Foi no final do outono de 2010 que Aristides de Sousa Mendes entrou na vida do compositor Neely Bruce e que o norte-americano decidiu inspirar-se no português para compor uma oratória, drama em música, que concluiu este mês.

“Foi a presidente da Fundação Aristides de Sousa Mendes que me desafiou. Demorei cinco segundos a decidir compor a peça”, recorda à Lusa o compositor, que ensina na Universidade de Wesleyan, no Connecticut.

Nos quatro anos que se seguiram, Bruce assistiu a todos os filmes e documentários feitos sobre o português que, em junho de 1940, desrespeitou as ordens de Salazar e concedeu milhares de vistos a refugiados que procuravam fugir da França ocupada pelas forças nazis, durante a Segunda Guerra Mundial.

"No verão de 2013 fui, inclusive, numa viagem a França e Portugal, com algumas dezenas de pessoas, a locais relacionados com as ações heróicas de Sousa Mendes”, explicou à Lusa.

O norte-americano começou depois a escrever o libreto da obra, pedindo a colaboração da presidente da fundação, Olivia Mattis, do especialista em história judaica Howard Needler e do dramaturgo John Basinger.

A peça de 90 minutos tem o título "Circular 14: The Apotheosis of Aristides” e deve ser interpretada por cinco solistas, dois coros e uma orquestra sinfónica completa e, além de solos de piano, tem solos de guitarra portuguesa.

“Apaixonei-me pelo som deste instrumento e ele está em destaque em três ou quatro momentos da oratória”, diz o compositor.

O título, "Circular 14", remete para a ordem de Oliveira Salazar que proibia o pessoal diplomático português de emitir vistos a apátridas e judeus. E a oratória obedece a uma estrutura semelhante a uma ópera, com árias, coros e recitativos, mas que não se destina à encenação, à semelhança das Paixões.

Um excerto da obra, com 40 minutos, foi apresentado pela primeira vez no passado domingo, em Washington, num evento para celebrar os 75 anos das ações heroicas de Sousa Mendes.

“A audiência estava em êxtase, não estou a exagerar. Recebi muitos parabéns no final e, mais tarde, por 'email' e telefone”, disse à Lusa.

Nesta apresentação, os músicos foram conduzidos pelo maestro Tedy Klaus.

O tenor Benjamin Slogan interpretou Aristides de Sousa Mendes e o baixo Stephan Kirchgraber fez o papel do rabino Chaim Kruge. A mulher de Aristides, Angelina, foi interpretada pela soprano Adrianne Brown, que acumulou o papel da sua segunda esposa, Andrée. O papel de Salazar e de um dos filhos do cônsul esteve a cargo do tenor Zander Ebin.

A parte narrativa e de apresentação foi desempenhada por um dos netos de Sousa Mendes, Gerald Mendes.

Vários netos do cônsul português deslocaram-se de França, Califórnia e do Canadá, para assistir à homenagem.

No evento, falou ainda uma sobrevivente do holocausto, que recebeu um dos vistos emitidos pelo cônsul, Rochelle Simsovic Kashtan, e o embaixador de Portugal em Washington, Nuno Brito.

No final, o rabino da sinagoga, Gil Steinlauf, de Washington, descerrou uma placa no Jardim dos Justos, local onde são homenageados heróis da comunidade judaica, com o nome de Aristides de Sousa Mendes.

O autor da obra musical, que apenas tinha uma ideia de quem era o português no início do processo, diz que este foi um dos trabalhos que mais o marcou na sua carreira.

“Sousa Mendes tornou-se mais do que o tema de um trabalho. Tornou-se um amigo, no sentido real de companheiro de armas. Ele ensinou-me que uma pessoa pode fazer a diferença, que coragem genuína ainda pode ser encontrada, que se pode sofrer as consequências de um destino ultrajante com graça e dignidade e que os ditadores mesquinhos deste mundo não têm sempre a última palavra”, disse à agência Lusa.

Bruce diz que ainda precisa de terminar uns pormenores da parte musical da obra e espera apresentá-la, de forma completa, perto do final do ano, em Los Angeles. Também existem contactos para fazer a interpretação da peça em Nova Iorque.

“Gostaria, especialmente, de ter a peça apresentada em Lisboa e em Bordéus”, explicou o autor à Lusa.

O norte-americano acredita que “Sousa Mendes era verdadeiramente um grande homem" e que mais pessoas precisam de conhecer as suas ações.

"A sua história tem de ser gritada de todos os telhados", afirma.