O ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados António Guterres afirmou, nesta segunda-feira, que o apoio da sociedade civil é uma “forma de redenção” dos “pecados da comunidade internacional”, dando o exemplo da crise síria.

“O papel da sociedade civil, através da mobilização de recursos”, mobilizando consciências, e do trabalho no terreno apoiando os refugiados, é “uma forma de redenção em relação àquilo que considero os quatro pecados da comunidade internacional”, disse António Guterres na cerimónia de entrega dos donativos dos portugueses angariados na campanha PAR – Linha da Frente para apoiar a Cáritas e o Serviço Jesuíta aos Refugiados no Líbano.

O antigo primeiro-ministro deu como exemplo a situação síria, que classificou como “a mega crise dos nossos tempos”.

“Não é a única, infelizmente os conflitos proliferam por toda a parte, mas é seguramente aquela, com o Iraque, que causa maiores preocupações uma vez que os dois países já deslocaram cerca de 15 milhões de pessoas”, frisou.

António Guterres apontou como “primeiro pecado ou a primeira falha da comunidade internacional” a falta de resposta para estes conflitos e não ter capacidade de os prevenir e de os resolver.

“Eu não me recordo na minha vida de uma fase em que a comunidade internacional fosse tão incapaz de encontrar soluções para os problemas que a paz infelizmente tem vindo a enfrentar”, lamentou.

“Vivemos num mundo que já foi bipolar, que já foi unipolar e que hoje é caótico e a capacidade da comunidade internacional intervir é cada vez mais reduzida e, por isso, a imprevisibilidade e a impunidade proliferam e não só os conflitos aumentam como, pior, o comportamentos dos agentes nos conflitos é cada vez mais grave”, sustentou.

Exemplificou com as dificuldades que a comunidade internacional está a enfrentar para fazer chegar comida a cerca de 400 mil pessoas que estão cercadas em algumas localidades na Síria e que “estão literalmente a morrer à fome”, porque os mais elementares direitos não estão a ser respeitados pelas partes dos conflitos.

Já o “segundo pecado” tem a ver com a reduzida ajuda humanitária às vítimas destes conflitos e em particular aos refugiados.

Segundo António Guterres, os apelos lançados pelas diversas organizações humanitárias na zona do Médio Oriente em relação ao conflito sírio foram respondidos, até agora, em cerca de 50%.

Mas em situações africanas, “muito mais esquecidas, muito menos na agenda internacional”, essa resposta fica-se nos 20/30%.

Contudo, lamentou, “se olharmos, por exemplo, para o volume de recursos que é posto à disposição dos bancos para superarem as suas crises há aqui dois pesos e duas medidas”.

Também “se olharmos para a totalidade da ajuda humanitária no mundo, cerca de 20 mil milhões de dólares, parece muito, mas é uma gota de água” se comparada com as despesas militares ou com as despesas de intervenção nos setores financeiros.

A falta de apoio aos países da linha da frente, sendo o Líbano “um exemplo gritante”, é o terceiro pecado apontado por António Guterres.

Por fim, o quarto pecado relaciona-se com “a atitude do norte global, quando os refugiados chegam ao norte global, e em particular a situação europeia”.

Para António Guterres, a sociedade civil tem sido “uma voz forte na defesa dos direitos dos refugiados”, lutando contra a “incompreensão generalizada” de muitos setores das populações de que são uma ameaça.

“Este matraquear permanente desta imagem de descontrolo criou uma ansiedade e receio que depois, nomeadamente com os incidentes de Paris, se transformou numa reação extremamente negativa explorada por forças políticas e por forças sociais populistas xenófobas, criando cada vez mais uma atitude de rejeição em relação aos refugiados”, frisou.