Filha de atores e neta de atores, só podia ser atriz.

Não, claro que não.

Angelina Jolie Pitt (é esse o seu nome completo atual) podia ter sido outra coisa qualquer, mas com um primeiro papel no cinema quando ainda frequentava a escola primária, digamos que o caminho lhe foi apontado com bastante firmeza.

Depois dessa participação em "Lookin'to Get Out" (1982), ao lado do pai, John Voight, Angelina só voltou a aparecer no ecrã aos 18 anos. O flime chamava-se "Cyborg 2" e nem sequer chegou às salas de cinema (foi diretamente para distribuição vídeo), mas também são muitos raros os casos de grande sucesso à primeira ou segunda tentativa. Angelina Jolie fez o "caminho das pedras" habitual em quase todos os atores em início de carreira, participando em filmes de que hoje poucos se lembram, mas fazendo o suficiente para ir sobressaindo.

Já na vida pessoal, foi preciso mais tempo para que conseguisse encontrar algum equilíbrio. A sua relação com o pai, John Voight, foi sempre problemática, tendo havido cortes de relações frequentes entre ambos. Durante a adolescência e os seus primeiros anos como adulta, Angelina passou por quase todos as situações usuais nos jovens-problema: mau comportamento, automutilação, desordens alimentares, uso de drogas, doenças psiquiátricas e suicídio (planeado, mas não tentado).

Segundo a própria Jolie, só aos 26 anos, quando adotou o seu primeiro filho, é que conseguiu estabilizar a sua vida e afastar-se dos comportamentos autodestrutivos. Dois anos antes, em 1999, Angelina conseguiu firmar o seu estatuto de grande atriz e estrela em ascensão com a conquista do Óscar para a melhor atriz secundária com a sua representação no filme "Vida Interrompida".

Nessa altura, já ninguém podia negar que Angelina Jolie era muito mais do que a filha bonita de John Voight. Com o primeiro filme da série "Lara Croft: Tomb Raider" (2001), transformou-se numa estrela de Hollywood no verdadeiro sentido da palavra.

Aproveitando esse reconhecimento, Angelina decidiu pô-lo ao serviço de uma causa próxima do seu coração. Desde 2001, que a atriz colabora com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, um organismo que é dirigido por António Guterres.

Depois de mais de uma década como embaixadora da Boa Vontade, durante a qual visitou alguns dos locais mais perigosos do mundo, Jolie foi promovida ao posto de enviada especial do alto-comissário, o que demonstra que o seu empenhamento foi muito além do "chá e simpatia" tantas vezes criticado noutras celebridades que se dedicam a causas deste tipo.

Foi também graças do seu trabalho com os refugiados que Jolie deu outro passo essencial na sua vida: a adoção de três crianças estrangeiras que viviam em orfanatos. Além desses três filhos, Jolie tem outros três, resultantes da sua relação com o ator Brad Pitt.

Os dois apaixonaram-se em 2005, durante a rodagem do filme "Mr. & Mrs. Smith", numa altura em que Pitt era casado com outra atriz famosa, Jennifer Anniston. O caso gerou um grande frenesim na comunicação social, porque supostamente teria havido uma traição (sempre negada por Jolie), mas, como é habitual em Hollywood, tudo passou sem consequências públicas de maior para os envolvidos.

Angelina Jolie e Brad Pitt são hoje o casal mais conhecido e influente de Hollywood. A sua união, reafirmada em 2014 através do casamento, dá-lhes muito mais notoriedade do que teriam se estivessem separados. Por isso, têm uma capacidade raramente vista de atrair atenções e interesses para as causas que consideram importantes.

A decisão recente de Angelina Jolie de enfrentar o cancro de forma radical é exemplar nesse aspeto. Poucas coisas terão feito mais pela sensibilização das mulheres de todo o mundo para o cancro da mama e dos ovários como o anúncio de que Jolie tinha feito uma dupla mastectomia total e, mais tarde, a remoção dos ovários e das trompas de falópio.

Ao chegar aos 40 anos, Angelina Jolie dedica cada vez menos tempo à representação. Os seus interesses centram-se cada vez mais na realização, na produção e nas causas filantrópicas. Têm-no feito com tal intensidade que não é de todo absurdo pensar que ela poderá, um dia, optar por uma mudança de carreira ainda mais radical.

Outros já o fizeram, e com muito sucesso.