Que efeitos poderá nos últimos dois anos da Presidência Obama uma previsível vitória republicana nas eleições de terça para o Congresso?
 
Do ponto de vista simbólico, a tomada do Senado pelos republicanos (possível, mas ainda não certa), poderá ser mais um revés para as condições políticas do Presidente.
 
Mas se a principal consequência for o «congelamento» de propostas cruciais para a agenda político do segundo mandato de Obama, como a reforma da imigração ou mesmo um progresso bloqueio da aplicação do ObamaCare, então concluiremos que o ambiente em Washington não mudará em nada de fundamental.
 
Mais: até pode acontecer que na terça se assista a uma grande vitória dos republicanos na House e à mudança de mãos partidárias do Senado, com os democratas a perderem a pequena vantagem de que dispõem, e depois, daqui a dois anos, na corrida à Casa Branca, volte a ser um democrata a vencer a presidência.
 
Contradição eleitoral? Não necessariamente. O último ciclo homólogo (intercalares 2010, presidenciais 2012) mostrou exatamente essa oscilação: «tsunami» eleitoral republicano há quatro anos nas «midterms», reeleição inesperadamente folgada do democrata Barack Obama dois anos depois.
 
Tendo em conta os problemas de popularidade do Presidente (média de 40% de aprovação), uma penalização eleitoral do partido de Obama em eleições a meio de mandato será um fenómeno político natural: e as sondagens apontam mesmo para aí.
 
Mas, curiosamente, ao mesmo tempo que as pesquisas detetam fortes probabilidades de dupla vitória republicana esta terça (Câmara dos Representantes e Senado), as «forecasts» para as presidenciais de novembro de 2016 (dois anos, na política americana, não é assim tanto tempo…) indicam que a mais do que provável nomeada democrata presidencial, Hillary Clinton, tem bom avanço sobre qualquer pretendente republicano.
 
Em dois anos, como é óbvio, muito pode mudar. Na política americana, então, ainda mais. Mas o quadro parece estar traçado: o momento, esta terça, será dos republicanos, mas isso está longe de condenar as hipóteses de Hillary para 2016.
 
Bem pelo contrário: nessa cadência de dois anos, entre eleições gerais e intercalares, a alternância republicanos/democratas tem sido quase regra.
 
Foquemo-nos, então, no que está em causa esta terça: todos os 435 lugares da House of Representatives irão a votos (nesta altura, os republicanos controlam 234 lugares, os democratas 201).
 
No Senado, como cada vaga tem duração de seis anos, há um terço dos 100 lugares em disputa. A atual distribuição aponta para 53 democratas, 45 republicanos e ainda dois independentes que costuma alinhar com os democratas.
 
Quer isto dizer o GOP precisa de arrecadar pelo menos seis assentos no Senado aos democratas, para que os 114.º Congresso dos EUA passa a ter total controlo dos republicanos e não este cenário de «governação partilhada».

A leitura nacional destas eleições é especialmente difícil de assumir: basta atentar às diferenças de posição em temas cruciais entre candidatos do mesmo partido (tanto democratas como republicanos), em função da realidade estadual.
 
Há, de facto, um traço comum, do lado dos candidatos democratas de «fugir» do contágio que o Presidente implicar. Mas mesmo isso deve ser encarado como um fenómeno normal numa eleição intercalar.
 
Morte política de Obama depois de provável derrota democrata na terça? Esqueçam.
 
Quem se lembra de 1994 percebe a resposta: Bill Clinton parecia ter terminado a sua presidência em apenas dois anos e, em 1996, viria a ganhar facilmente contra o republicano Bob Dole, partindo para segundo mandato conturbado em escândalos mas extremamente bem-sucedido em sucessos políticos no plano interno e externo.
 
Obama talvez já não vá a tempo disso, mas ainda é cedo para decretar o fim do 44.ª Presidente dos EUA.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»