Uma jovem abandonada pelos pais na China, e adotada depois por um casal norte-americano, reencontrou os pais biológicos 20 anos depois, graças a um bilhete que estes deixaram junto com ela quando a abandonaram recém-nascida. O bilhete, que era endereçado a quem viesse a ficar com a bebé, foi mantido em segredo pelos pais adotivos de Kati (assim se chama a jovem) e só muito recentemente lhe foi revelado. A revelação acabou por dar origem a um reencontro emocionante duas décadas depois. 

De acordo com a BBC, os chineses Xu Lida e Qian Fenxiang abandonaram a filha na rua três dias depois de ela nascer, em 1995. O casal, que já tinha uma filha, viu-se obrigado a tomar a decisão por causa da política do filho único que vigorava na época na China para controlar o crescimento populacional. Quem infringisse a lei era severamente punido, com multas e aborto forçado. Apesar de terem colocado a hipótese de interromper a gravidez, Qian Fenxiang e o marido, Xu Lida, acabaram por não ser capazes de o fazer.

Foi então na manhã do terceiro dia de vida da bebé que o casal decidiu abandoná-la num mercado da cidade.

“Ela não chorou. Ela estava a dormir. Dei-lhe um beijo, sabia que iria ser o último, e afastei-me”, recorda o pai biológico.

Xu Lida e Qian Fenxiang passaram anos a interrogar-se sobre o que teria acontecido com a filha e sofriam com a incerteza de não saber nem sequer se ela estava bem. A decisão de a abandonarem acabou por levá-la para o outro lado do mundo. A menina foi encontrada e entregue a um orfanato e, passado um ano, foi adotada por um casal norte-americano. Ken e Ruth Pohler viajaram de Michigan, nos EUA, para Suzhou, na China, com o propósito de adotar uma criança. E foi aí que conheceram a menina a quem chamaram Kati.

Ao abandonar a filha na rua, o pai biológico também deixou um bilhete endereçado a quem viesse a adotar a menina. 

"O orfanato deu-nos um documento escrito em chinês... Era uma mensagem dos pais biológicos para os pais adotivos. Explicavam que abandonavam a filha não porque queriam, mas por causa de como as coisas estavam na China naquele momento", diz à BBC Ken Pohler, o pai adotivo de Kati.

A carta dizia: “A nossa filhinha nasceu em 1995, a 24 de julho, de manhã, em Suzhou. Por causa da nossa pobreza, e por outros problemas, não tivemos outra escolha senão abandoná-la na rua. Se vocês tiverem simpatia por nós, pais, por favor vão ao nosso encontro na Broken Bridge, em Hangzhou, daqui a dez ou vinte anos”.

A carta era assinada: "Dos pais sem coração".

Xu Lida explica que sugeriu o encontro para dali a dez ou 20 anos por achar que os pais adotivos não iriam deixar que vissem a criança quando ela ainda fosse bebé.

Ken Pohler diz que compreendeu a aflição dos pais biológicos: "Nós queríamos dar-lhes alguma garantia de que ela estava numa boa família, que era bem cuidada e que a amávamos muito. Queríamos que os pais biológicos soubessem disso, embora não pudéssemos ir até lá encontrar-nos com eles."

A Broken Bridge de Hangzhou é um conhecido ponto de encontro na China. Todos os anos, no dia 7 de julho, as pessoas dirigem-se até lá para reencontrarem entes queridos. No ano em que Kati completou os dez anos, os pais adotivos, Ken e Ruth Pohler, enviaram uma mensageira até à ponte com a missão de dizer aos pais biológicos que a filha deles estava bem.

A mulher enviada por Ken e Ruth atrasou-se e o encontro acabou por não acontecer. 

Em busca de notícias da filha, Qian e Xu Lida decidiram dar uma entrevista à televisão A história ganhou visibilidade em toda a China. A repercussão assustou os pais adotivos de Kati, que não queriam que ela passasse por uma exposição tão grande e encarasse um reencontro com os pais biológicos ainda criança.

"Ela era apenas uma menina de dez anos. Não queríamos que alguém da China entrasse em contacto com ela dizendo que era o pai biológico. Não achávamos que ela estivesse preparada para isso", diz Ken Pohler.

Os pais biológicos de Kati continuaram a ir à ponte todos os anos, no mesmo dia 7 de julho.

"Desde 2004, eu visitei a ponte anualmente. Sabia que não havia muita esperança. Muitas vezes passava o dia todo a olhar para o lago, na esperança de que a minha filha aparecesse", conta Xu Lida.

Do outro lado do mundo, Kati Pohler não sabia de nada do que tinha acontecido. Até ao ano passado, quando completou 20 anos. A jovem diz que, em alguns momentos, sentiu curiosidade em saber quem eram os pais biológicos, mas o assunto nunca surgiu naturalmente nas conversas com a família.  Apesar de se lembrar de ter visto a certa altura da vida um bilhete escrito em mandarim, Kati recorda que não conseguia afirmar com certeza de que tudo não passava de imaginação. 

Um dia, no carro, perguntei à minha mãe 'o que é que sabes sobre a minha adoção?', e ela disse: 'ah, sim, há uma coisa que provavelmente já te deveríamos ter contado há muito tempo'”, conta a Kati.

Kati descobriu que os pais biológicos dela apareceram num documentário chamado "Longa Espera pela Volta para Casa", e que o cineasta Changfu Chang estava em contacto com ambas as famílias: a biológica e a adotiva.

Para a jovem, foi um choque saber que a verdade lhe tinha sido ocultada durante tanto tempo pelos pais biológicos. 

Eu entendo a lógica deles, mas acho que é uma lógica ruim. Eles diziam: 'Queríamos ter certeza de que estavas pronta e blá-blá-blá. Mas acho que nós nunca estaremos preparados para isso", argumenta Kati.

Em busca de respostas, a jovem assistiu ao documentário de Changfu Chang, que contava a saga dos pais biológicos. No filme, Qian Fenxiang explica que teve de dar à luz longe dos hospitais e sem ajuda médica, pois teriam de apresentar na clínica uma autorização para o parto.

A mãe biológica também diz que queria entregar a filha a algum conhecido, para que conseguisse visitá-la, mas que não encontrou quem pudesse adotá-la. "Foi quando meu marido disse que podíamos deixá-la no mercado."

Kati comoveu-se com o relato dos pais biológicos e com a dor que eles sentiam por não poderem ter contacto com a filha.

Ainda que tenha compreendido a decisão dos pais adotivos, a jovem decidiu ir até à China para reencontrar os pais biológicos, da mesma forma que eles tinham planeado fazer no bilhete que deixaram.

“Nós amamo-la muito. Não perdemos nada, estamos felizes por ela”, assegura Ken Pohler.

O encontro, registado pelo cineasta Changfu Chang, foi emocionante. A mãe de Kati chorava copiosamente e não parava de pedir perdão à filha.

Finalmente eu vi-te, finalmente encontrei-te. A mãe sente muito, sente muito", repetia Qian à filha.

Depois de conhecer os pais biológicos e a irmã mais velha, Kati passou alguns dias com a família e depois regressou aos Estados Unidos. A jovem voltou à faculdade e pretende aprender a falar mandarim. A mãe biológica envia-lhe mensagens de "bom dia" e de "boa noite" todos os dias.

“O amor é imenso. Eu sei que os meus pais adotivos me amam e agora tenho todo esse novo amor que eu nem sabia que existia mas que esteve sempre ali”, resume Kati.