Teve que reaprender a falar, andar, ler e escrever e todos os dedos dos seus pés foram amputados. Ainda assim, após o segundo brutal episódio, casou-se, foi mãe e ganhou uma nova vida. Esta é a história de Beth Petterson, uma mulher atualmente com 49 anos, que foi atingida duas vezes por um raio, numa mesma data, com um ano de diferença.

A minha vida mudou para sempre", é a conclusão de Beth, em declarações à página da cadeia britânica BBC, ao contar uma experiência brutal, que estatisticamente atinge uma pessoa em, pelo menos, 700 mil nos Estados Unidos.

Aos 24 anos, em 1992, Beth era soldada, militar no estado norte-americano da Geórgia. Andava a controlar as munições num ponto de abastecimento com um colega, quando tudo aconteceu pela primeira vez. Pouco ou nada fazia prever o que lhe poderia e iria acontecer, exceto as carregadas nuvens negras que tapavam o céu.

Um raio caiu e atingiu Beth, arrastando-a nove metros pelo chão. Antes de ser atingida, conta Beth que viu uma árvore a ser rachada ao meio por um outro raio, a cerca de 45 metros de si.

Senti que cada centímetro de mim estava a ser queimado com eletricidade, a matar-me. O relâmpago que tinha entrado no meu corpo através dos pés, atravessou-me e saiu pela boca e pela cabeça, parando os meus batimentos cardíacos", recorda a sobrevivente.

O colega que estava com ela naquele momento tentou reanimá-la. Mas só os paramédicos conseguiram ressuscitá-la.

Os médicos ficaram surpreendidos por Beth ter conseguido sobreviver. Ela estava semiconsciente quando chegou ao hospital e relembra que lhe foi perguntado se tinha sido baleada ou se uma bomba tinha explodido.

Eu não podia falar porque tinha o maxilar partido. Não conseguia entender o que diziam por causa de uma grave lesão cerebral e não conseguia andar porque os vasos sanguíneos dos meus pés estavam completamente destruídos. Fui submetida a 12 cirurgias para reconstruir o maxilar e os meus dedos dos pés foram amputados".

Recomeçar

Aos poucos, Beth Petterson reaprendeu a ler, a escrever, a falar e a andar, usando muletas.

Foi quando começou a conseguir dizer o alfabeto e a realizar contas simples de matemática que sentiu esperança. Além da reabilitação física, diagnosticaram-lhe stress pós traumático e teve que ser acompanhada por um psicólogo. 

Exatamente um ano depois do acidente, continuava em casa sem conseguir trabalhar. O céu estava com as nuvens escuras carregadas e o meu psicólogo aconselhou-me a enfrentar os meus medos. Foi o que fiz. Fui até à varanda e voltei a sentir o mesmo. Aquele mesmo clarão de luz, o mesmo ardor agonizante. Arrastou-me para dentro de casa e o meu namorado David correu ao meu lado. Antes de perder a consciência, eu tinha certeza de que iria morrer", conta Beth, sobre o que se lembra ao ser atingida por um raio pela segunda vez, precisamente na mesma data, um ano após a primeira tragédia.

Dois raios e um filho

O raio, a descarga elétrica que ocorre durante as tempestades, é responsável por mais de quatro mil mortes no mundo em cada ano.

Nos Estados Unidos, as hipóteses de se ser atingido por um raio são de um caso em 700 mil. Já no Reino Unido, são de um em 10 milhões. Ainda assim, não existem estatísticas que determinem a probabilidade de uma pessoa ser atingida duas vezes num mesmo dia, com um ano de diferença.

Quando foi atingida pelo segundo raio, os médicos não conseguiram determinar com exatidão as consequências no corpo de Beth Petterson. Mais ainda, porque continuava em recuperação do primeiro acidente. Ela continuou a frequentar o hospital, onde teve de repetir praticamente todo o processo de reabilitação. 

Quatro meses depois do segundo raio, recuperei forças suficientes para andar com o apoio de uma bengala e decidi com o meu namorado que iríamos casar-nos. No ano seguinte, tivemos um filho, o Casey. Depois de cada cirurgia, de cada sessão de reabilitação, foram eles a fonte de alegria que me ajudou a superar tudo", relata Beth.

Passaram-se 25 anos, desde o último acidente. Beth Petterson ainda sente dores. Mas em vez de se focar nas más recordações, a sobrevivente dá palestras a pacientes com transtornos pós traumáticos e com dores crónicas.