Por: Redacção / FC | 7- 12- 2011 12: 12
José Sócrates afirma que para países como Portugal e Espanha pagar a dívida é uma ideia de criança.
O ex-primeiro
ministro, que actualmente estuda Ciência Política em Paris, também considera que as dívidas dos estados são eternas por definição.
Foi a primeira vez que falou em público depois de ter deixado o Governo:
«A minha visão é que para países como Portugal
e Espanha a ideia de que agora é preciso pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos países, pelo menos foi o que
eu estudei em economia, são por definição eternas. As dívidas gerem-se, foi assim que eu estudei. É claro que não podemos
deixar crescer muito, porque isso pesa sobre os encargos. Todavia, para um país como Portugal é absolutamente essencial, para
a sua modernização e para o seu desenvolvimento, ter financiamento, quer para a modernização das suas infraestruturas, quer
para a modernização das suas políticas, quer para o crescimento da sua economia. É assim que eu vejo as coisas».
Declarações
realizadas durante uma hora e meia em Poitiers, a 3 de Novembro, numa conferência sobre a evolução de Portugal e onde Sócrates
também foi questionado sobre o estado da Europa.
Esta resposta surgiu quando um dos alunos presentes na sala lhe
perguntava sobre a culpa da esquerda na actual crise. Sócrates lembrou que «o ódio ao estado social tem décadas» e que a direita
está a aproveitar para atacar esta realidade europeia.
«Simples homem de acção»
Mas o ex-primeiro-ministro
falou de muito mais coisas. Explicando em francês que preferia fazer a análise completa em português, para não ser mal interpretado,
pediu aos colegas para não acreditarem em «tudo o que se diz de Portugal». Elogiou o progresso na educação, na ciência, nas
energias renováveis e até no casamento gay, mas admitiu que o seu papel agora é diferente: «Neste momento sou um pobre homem
de acção e é um prazer poder ler os textos clássicos».
Quanto à crise do euro, confessa que estamos a atravessar
«tempos horríveis em Portugal e na Europa», mas acredita que «a Europa não vai ficar na mesma». «Eu darei tudo para que ande
para a frente», frisou, aproveitando para lembrar que o Tratado actual chama-se de Lisboa e isso dá-lhe um prazer pessoal:
«O que fizemos foi obra de tanta gente que ao ver a situação actual parte-me o coração».
A crise é uma evidência
e «não há nada pior para um político do que uma crise». De qualquer forma, atravessa-se «um dos piores momentos da história
económica, só comparável a 29». Um período que começou nos Estados Unidos em 2008 e que ainda não terminou. «Recordo-me que
me ligaram no Verão de 2007 a dizer o que era o subprime», recorda.
«O português mais cabo-verdiano»
Recebido
com simpatia em Poitiers, José Sócrates não se cansou de agradecer as perguntas dos seus colegas, muitos deles brasileiros,
mas também portugueses e até cabo-verdianos. Aliás, este último aproveitou para dizer que o ex-primeiro-ministro português
ajudou muito o seu país. Sócrates agradeceu e foi mais longe:
«Tal como Vinicius disse que se sentia o branco mais
negro do Brasil, sinto-me um dos políticos portugueses mais cabo-verdianos em Portugal» [ndr: referência ao poema de Vinicius
de Moraes em que escreve: «O branco mais preto do Brasil da linha direta de Xangô, sarava!»]
Sócrates está nas
nuvens. Gosta de falar com os colegas e admite ter «paixão de ser leccionado». «Vim para conviver com a filosofia francesa
e com os colegas», desabafou, satisfeito por ter tempo para estudar.
Mesmo no final, uma derradeira questão sobre
o que mudaria na sua passagem pelo Governo. O tempo já era escasso, mas Sócrates teve mais uma tirada filosófica: «Vou citar-vos
Nietzsche: Arrependermo-nos é errar duas vezes. Considero que o mais importante para alguém como eu, que terminou um mandato,
e não perder tempo a olhar para trás. Não quero perder um minuto da minha felicidade no futuro pensando no que poderia fazer
diferente no passado».
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