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Miguel Portas: lágrimas no último adeus

Cerimónia evocativa este domingo no São Luiz

Por: Redacção / PO    |   2012-04-29 17:54

Miguel Portas não quereria lágrimas na sua despedida, mas o irmão, Paulo, não as conseguiu conter num discurso emotivo que o levou, em nome da família, ao púlpito do Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, esta tarde, em Lisboa.

Paulo Portas lembrou a «honestidade radical» de quem viveu e morreu como «um combatente», mas sempre com «suavidade e elegância», com um «admirável sorriso» que não largou «até ao último momento».

O irmão de Miguel Portas evocou a «irredutível amizade» que os unia. «Ambos dávamos ao outro não o preconceito sobre o que o outro pensava, mas o benefício da dúvida sobre o que o outro queria. Adorávamo-nos para além de todas as diferenças, eu diria até um pouco mais, adorávamo-nos também por causa das nossas diferenças», contou.

«O que explica a nossa irredutível amizade é uma palavra chamada respeito. Respeito não como veneração formal mas como capacidade de renunciar a alguma coisa de nós próprios para conservarmos o essencial do outro e o essencial e do que o outro significa para nós», afirmou Paulo Portas.

A cerimónia evocativa do eurodeputado e fundador do Bloco de Esquerda (BE) juntou muitas figuras públicas, da política à cultura, e centenas de pessoas que não couberam na sala e estiveram à chuva a prestar-lhe uma última homenagem.

Os dois filhos do eurodeputado, Frederico e André, falaram sobre um lado mais íntimo do que partilharam com o pai, e, entre as palavras de carinho, também não esqueceram as suas muitas ausências.

Frederico, de 15 anos, lembrou o seu «herói» pessoal, que «tornava utopias em realidade», a «pessoa mais empenhada no trabalho» e «mais equilibrada» que conheceu, que «era capaz de mudar de vida de um dia para o outro e trazia sempre uma equipa atrás».

André Portas, o filho mais velho, de 18 anos, recordou as ausências do pai que faziam as presenças ainda mais significativas, recordando que ele era «um estratega», capaz de expor qualquer coisa numa toalha de papel de restaurante - foi assim que lhe explicou o sistema feudal - e que aprendeu «a gostar mais das pessoas do que das massas».

«Em 99 disse a uma revista "sou mau pai, mas hei de ser bom". Remediou-se», disse André Portas.

O jardim de inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, foi o local escolhido pelo próprio para reunir os amigos e a família, num papel designado «para o caso de isto correr mal», conforme recordou a eurodeputada do Bloco Marisa Matias.

«Para ele, a política não era outra coisa senão as pessoas», disse Marisa Matias, que o lembrou como «um sonhador absolutamente incorrigível», numa ideia que João Semedo reforçaria ao afirmar que Miguel Portas «combateu sempre pelos de baixo», que constituíam «o impulso da sua iniciativa solidária e generosa».

O coordenador do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, falou do «romantismo» que «era o Miguel Portas», nomeadamente «o romantismo de procurar os outros, de aprender com os outros», fosse na mesquita azul de Istambul, na Grécia, em Gaza ou no Líbano sob bombardeamentos e também «o romantismo de escolher e acreditar, arriscar e perder, arriscar e ganhar».

Miguel Portas faleceu na terça-feira em Antuérpia, aos 53 anos, vítima de cancro.

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Sessão evocativa de Miguel Portas

Paulo Portas na sessão evocativa de Miguel Portas (ANTONIO COTRIM/LUSA) EM CIMA: Paulo Portas na sessão evocativa de Miguel Portas (ANTONIO COTRIM/LUSA)

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