O pito é doce

E a gancha também. Saiba do que estamos a falar

Por: tvi24    |   1 de Fevereiro de 2013 às 15:21
Tem raízes religiosas mas transformou-se numa tradição popular que se repete todos os anos: o rapaz oferece a gancha à rapariga que retribui com o pito, doces típicos de Vila Real relacionados com São Brás e Santa Luzia.

É no domingo que se assinala o dia de São Brás. Pastelarias da cidade ou mulheres, nas suas casas, confecionam por estes dias as ganchas, doces feitos de açúcar e água que reproduzem o báculo (bengala) bispal de São Brás, o padroeiro das doenças da garganta.

Isto porque nesta altura, segundo manda a tradição, os «rapazes oferecem a gancha de São Brás às raparigas, como forma de retribuir o pito de Santa Luzia que elas lhes terão oferecido em dezembro».

O pito, com recheio de doce de abóbora e cobertura de massa de farinha, tem o formato de uma espécie de penso antigo que se colocava na vista. Santa Luzia é a padroeira dos doentes com problemas de olhos.

João Silva, responsável pelo Museu da Vila Velha, disse à agência Lusa que esta é uma tradição que começa por ser religiosa e acaba, com o passar do tempo, por ter um cariz popular.

«Passar para a forma mais popular, mais brejeira, foi fácil porque o rapaz dá a gancha e a rapariga dá o pito e esta acaba por ser uma tradição muito curiosa. E também esse caráter engraçado que vai fazendo com que as pessoas venham à procura dos doces», salientou.

E são pessoas de todas as idades as que aderem a esta brincadeira.

À boleia desta doce tradição, o Museu da Vila Velha organiza neste sábado o programa «São Brás 2013», que vai desvendar alguns segredos da antiga Vila Real, acabando a visita na cozinha de uma das mais antigas pastelarias da cidade, a Casa Lapão.

Álea Zita, pasteleira há 31 anos, explicou como se fazem as ganchas.

«Pomos a água a ferver com o açúcar. Depois espalhamos o açúcar na banca e à medida que ele vai arrefecendo vamos moldando-o para lhe darmos a consistência das ganchas», salientou.

Já há muitos anos que esta rotina se repete nos dias que antecedem o São Brás. Na cozinha desta pastelaria são feitas cerca de 100 ganchas por dia. Aqui este doce só é feito nesta altura, enquanto os pitos estão disponíveis durante todo o ano.

No fim de semana, as «marianas», senhoras de uma família muito antiga que tradicionalmente confecionam a gancha, espalhar-se-ão pela zona da Vila Velha a vender o doce ao som dos sinos que replicarão na igreja de São Dinis.

O Museu da Vila Velha vai aproveitar ainda para mostrar a verdadeira capela de São Brás, que está dentro do cemitério desta zona da cidade, e ainda a capela de Santo António Esquecido, localizada bem ao lado do edifício museológico mas que muitas vezes é confundida com a de São Brás.

Isto porque, inicialmente, as ganchas eram vendidas junto à original capela de São Brás, só que com a construção do cemitério as mulheres tiveram que procurar outro local, acabando por se «apropriar» da pequena igreja dedicada a Santo António, levando para lá uma imagem da padroeira das doenças de garanta.

João Silva explicou que a ideia passa também por clarificar estas confusões e mostrar uma rara imagem de Santo António Esquecido, como nos conta a Lusa.
Partilhar
COMENTÁRIOS