O Sporting conquistou a dobradinha no final da temporada 1973/74. O Benfica terminou na segunda posição e o FC Porto ficou afastado do pódio, a um ponto do Vitória de Setúbal.

Quarenta anos após a Revolução dos Cravos e o fim do Estado Novo, a conclusão mais evidente aponta para a perda de força no Distrito de Setúbal e o crescimento progressivo das forças no norte do país.

Vitória de Setúbal, Montijo, Barreirense e CUF. Quatro clubes do sul do Tejo a disputar a I Divisão naquela época de transição para a liberdade. Seguiu-se o caminho para a escuridão, alterações profundas na economia naquela região, com a CUF como exemplo significativo.

Por outro lado, esse campeonato tinha apenas quatro emblemas a Norte: FC Porto, Boavista, Leixões e Vitória de Guimarães. Somavam-se outros quatro de Lisboa - com o Oriental ao lado de Benfica, Sporting e Belenenses – dois da região centro (Académica e Beira) e, finalmente, dois do Algarve (Olhanense e Farense).  






O 25 de abril explica tudo? Nem por isso. Mas comecemos pelo exemplo da Companhia União Fabril. Um gigante que caiu com estrondo. Conhé, antiga glória do clube, leva-nos nesta viagem.

«Para perceber o que a CUF era nessa altura, basta dizer que até o Fernando Caiado ficou maravilhado quando chegou. Levaram-no a um armazém onde havia de tudo! 100 bolas de dribles, caixas de botas e até equipamentos dos outros clubes. Se a CUF fosse defrontar o FC Porto, durante a semana as reservas usavam o equipamento do Porto para nós nos habituarmos.»

A família Mello deliciava-se com a CUF entre os grandes do futebol português.

«Ficámos em quarto lugar, fomos às competições europeias, ganhámos na Alemanha. Enfim, havia um grande investimento mas tinha retorno, dávamos visibilidade à CUF. Os salários não eram muito altos mas tínhamos muitos privilégios: médicos de graças, almoços por 5 escudos, etc. Tudo mudou depois do 25 de abril.»

A Revolução dos Cravos alterou por completo o panorama na Companhia.

«No cômputo geral, com o 25 de abril acabou a guerra, veio a liberdade e estamos satisfeitos. Mas o que aconteceu na CUF deixou-me triste. Surgiram revoluções internas, os trabalhadores tomaram conta, quiseram cortar com os privilégios dos jogadores e enfim, o processo não foi conduzido da melhor forma. Cortaram a direito com tudo.»

Conhé, natural de Alhos Vedros, passou grande parte da carreira no Distrito de Setúbal e lamenta a perda de força na região.

«Basta apresentar estes números: a CUF tinha 11 mil empregados, os Caminhos de Ferro 7 mil, havia a Setenave com outros 6/7 mil, mais a Siderurgia…A região tinha uma força tremenda. Depois do 25 de abril, correram com os Mellos, com Champalimaud, etc. No ano passado, estive a treinar o Fabril nos distritais e só pode ir até à segunda divisão, não tem capacidade para mais. Foi o que mudou em quarenta anos. No distrito, resta o Vitória e muito graças a Fernando Oliveira.»

António Simões, antiga glória do Benfica, junta a sua voz crítica. Ninguém se mostra contra a Revolução dos Cravos mas os passos seguintes não acolheram unanimidade.

«Economicamente, o sul do Tejo ficou mais frágil e não há dúvidas de que houve exageros. Porque é que o 25 de abril teve de destruir a CUF? Quem tinha algum dinheiro ou não era de esquerda tinha de ser abatido? Os Mellos passaram a ser pobres? Os sindicatos de esquerda arrasaram tudo.»

40 anos após o 25 de abril de 1974, António Simões apresenta um discurso forte: «Ainda hoje andamos a pagar pelos erros cometidos.»

«Como diria um amigo meu, sabe o que é a beleza interior? É abrir a porta do frigorífico e ver comida lá dentro. Na mesa de jantar vamos colocar democracia? E amanhã liberdade? Lamento profundamente a falta de visão e o oportunismo que veio a seguir ao 25 de abril.»

O Barreirense também andava pela I Divisão nessa altura. Manuel Abrantes recorda o ambiente especial em torno do clube.

«Era uma cidade operária, muito conotada com o comunismo. Estávamos em campo e víamos a GNR de espingardas viradas para os adeptos. Intimidavam as pessoas e chegaram a ir buscar algumas às bancadas. Depois do 25 de abril, veio a liberdade e um grande desejo das pessoas em não querer situações de exceção, como os jogadores de futebol tinham, mas cada caso era um caso e isso devia ter sido levado em conta. Como os empregos eram um aliciante para jogar no Barreirense e isso deixou de existir, os jogadores deixaram de ter interesse em ir para lá.»

O Vitória de Setúbal foi o único resistente nas competições profissionais a Sul do Tejo. Carlos Cardoso avança com outros dados.

«Notou-se um desarmar de tenda no distrito de Setúbal. Aqui na cidade, foi sobretudo pela indústria das pescas e das conservas. Mas há outros exemplos: os Montijos, os Barreirenses, mais tarde o Amora, o Seixal…Ficou o Vitória e mesmo assim com dificuldades.»

(Imagem: o Vitória de Setúbal dos anos 70)


Do outro lado do Tejo, Amílcar Fonseca fala de um Oriental sem massa humana para se manter entre os grandes.

«Chegámos a ter uma grande equipa e eu fui o primeiro internacional do Oriental, era avançado mas passei a central com Pedro Gomes. Com o tempo, o clube sofreu um pouco, aqueles bairros mais antigos e velhos de Lisboa foram perdendo gente e o Oriental ressentiu-se.»
 
A rivalidade entre Faro e Olhão

O Farense caiu mais tarde, o Olhanense vai-se mantendo entre os clubes da Liga. As dificuldades financeiras são, ainda assim, indisfarçáveis, ao contrário do que acontecia em 1974. Conta Artur Amaral Reis .

«Na altura tínhamos muitos brasileiros e vários lisboetas, como eu. Todos profissionais e com grandes condições. O clube pagava o nosso alojamento no Hotel Siroco, na Aldeia dos Pescadores, e comida num restaurante. Lembro-me que o Jorge Jesus chegou em 74/75. Era um tempo em que havia muito investimento do Olhanense.»

Artur Amaral Reis partilha memórias deliciosas de um período em que o futebol era vivido com extrema intensidade entre OIhão e Faro.

«Nessa altura, recebemos e vencemos o Sporting, uma equipa muito forte. E curiosamente, o jogo foi no campo do Farense, já que o nosso estava interditado. Mas também recordo um dia em que fomos jogar contra o Farense e, quando chegámos lá, havia um caixão à nossa espera no meio do relvado! Essa rivalidade algarvia faz falta à I Divisão.»

Afastado do futebol, o antigo defesa termina a conversa com um dia que ficou marcado na sua carreira: «Em janeiro de 1975, o meu pai faleceu e fui ao funeral. Pagaram-me o avião de volta para ir jogar, mas entrei em campo alterado, recebíamos a Académica e fui expulso ao minuto 25. No final, os meus colegas foram explicar ao árbitro o que se passava comigo. É um dia que ficará sempre na minha memória.»

(Imagem: o Olhanense após o 25 de abril de 1974)


A criação apressada do Clube Académico de Coimbra

Mais um excesso pós-Revolução? Na zona centro, a Académica de Coimbra manteve a sua posição mas passou um período estranho, algo que nem José Freixo consegue explicar sem alguma tristeza na voz.

«Logo após o 25 de abril, a direção da Associação Académica de Coimbra correu com a equipa de futebol. Tínhamos um vencimento, ganhávamos qualquer coisinha, e criou-se ali a ideia de que não devia haver aquele gasto.»

Apressadamente, os responsáveis pela equipa de futebol criaram o Clube Académico de Coimbra. Tudo para continuar a representar a cidade no escalão principal do futebol português.

«Ao início, a Federação não queria aceitar a nossa inscrição e os jogadores mais velhos foram a Lisboa para falar com o Presidente da República. Esperaram algumas horas e lá conseguiram. Os políticos gostavam da Académica, sempre foi assim.»

Após uma pré-época conturbada, Coimbra recebeu de braços abertos o Clube Académico.

«Fomos fazer a pré-época para o campo da Naval. Era a manhã a treinar na praia, à tarde no estádio e à noite dormíamos no Pavilhão. Num amigável com o Boavista, até jogámos de branco, tivemos de retirar o símbolo da Académica. Mas depois tudo ficou normalizado, competimos uns anos como Académico mas voltámos a ser integrados na AAC.»

José Freixo e o irmão Gregório, filhos de um antigo guarda do campo, ficaram na história da Académica. José viria a trabalhar na Câmara de Coimbra, sem esquecer aquele período conturbado.

Vítor Urbano também andava por Coimbra em 1974. O jogador tinha sido obrigado a abandonar temporariamente o Beira Mar. O clube de Aveiro queria uma equipa cem por cento profissional, sem desvios no percurso.

«O meu pai queria que eu estudasse Direito em Coimbra e isso iria obrigar-me a faltar a um treino por semana. O Beira Mar não permitiu e tive de fazer uma pausa na carreira. Enfim, era essa a política do clube e só voltei porque, com o 25 de abril, ninguém sabia muito bem como ia ser o ensino em Coimbra. Queriam acelerar os cursos, passar as pessoas pela via administrativa, e eu achei que não era o ideal. Acabei depois por ficar vários anos no Beira Mar.»

(Imagem: o Beira Mar após a Revolução dos Cravos) 


O Norte a ganhar dimensão no mapa futebolístico

Se o Distrito de Setúbal sofreu o maior impacto negativo após o 25 de abril de 1974, o Norte do país conquistou o seu espaço e ganhou dimensão.

O Boavista recebeu José Maria Pedroto em janeiro e chegou - dois anos mais tarde - a disputar o título nacional até à reta final do campeonato. Explica Acácio Casimiro.

«O Benfica tinha uma grande equipa mas também muita influência. Em 1975/76, ficámos a dois pontos do título, com várias expulsões encomendadas a João Alves.»

Lemos, antigo jogador do FC Porto, alinha pelo mesmo diapasão.

«Depois do 25 de abril, as coisas começaram a dar uma grande volta. Com a chegada do Sr. Pedroto ao FC Porto e com Pinto da Costa, o clube foi ficando cada vez mais forte. Mesmo na seleção notava-se algum centralismo. No início da década de 70, só iam o falecido Pavão e o Rolando à seleção principal e eu às esperanças.

Romeu Silva, então no Vitória de Guimarães, quebrou essa tendência ainda antes do 25 de abril. Mas reconhece que não era fácil.

«Quando me estreei frente à Inglaterra, fui o único utilizado de um clube do Norte. Antes tinha sido Pavão, que infelizmente veio a falecer.


Médio promissor, Romeu rumou ao Benfica em 1975 e arrancou para uma carreira invulgar. Foi dos poucos jogadores a representar os três grandes. Quatro anos no FC Porto e três no Sporting permitem um balanço extremamente positivo.

«Fui para o Vitória com Mário Wilson, moçambicano como eu, e para o Benfica também com ele. Mas lesionei-me e no segundo ano tive Mortimore, que insistia em colocar-me a lateral esquerdo. Pedi para sair. Voltei ao Vitória e depois fui para o FC Porto com Pedroto. Por fim, o Sporting. Aí sentiu-se o peso dos métodos de treino daquela época. Contraí uma hérnia discal que me paralisou a perna direita. Tive de ser operado para não ficar incapacitado e ainda hoje tenho algumas dificuldades.»

Voltando ao início de tudo: sem o fim da Lei de Opção, após o 25 de abril de 1974, poderia Romeu Silva ter representado Benfica, FC Porto e Sporting ao longo da carreira? Muito provavelmente, não. Uma vitória da Liberdade.
 
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