O futebol português não passou ao lado da Revolução de 1974 mas a bola continuou a rolar, sem interrupções. Quarenta anos após o 25 de abril, 16 antigos jogadores de igual número de clubes contam histórias desse tempo. Umas conhecidas, outras nem tanto.

A mais famosa gira em torno do Sporting, que viria a conquistar a dobradinha. A 24 de abril, os leões disputaram a segunda mão das meias-finais da Taça das Taças. Após o empate em Alvalade (1-1), o Magdeburgo foi mais feliz na Alemanha (2-1) e seguiu em frente.
Fernando Tomé falhou aquele que seria o 2-2.

«Tivemos azar em casa e fomos desfalcados para a Alemanha, sem o Yazalde nem o Dinis. Eu acabo por ter culpas nesse resultado, já que entrei e falhei um golo. Foi uma grande jogada do Marinho, chutei de primeira e a bola passou ao lado do poste. Digo o mesmo até hoje: era o golo que mais gostava de ter marcado na minha carreira.»

(Imagem: Fernando Tomé após falhar o 2-2 na Alemanha)


Fernando Tomé passou a noite em branco, sem imaginar como seria o dia seguinte.
«Às 5h30 já estávamos na estrada para o regresso e foi quando o presidente João Rocha nos anunciou a revolução. Mas o pior foi no aeroporto de Frankfurt. O balcão da TAP estava fechado mas dois funcionários disseram que as notícias apontavam para milhares de mortos em Portugal. Ficámos em pânico!»

O Sporting voou de Frankfurt para Madrid e fez o resto da viagem de autocarro. A história estava longe do seu final.

«Chegámos a Badajoz e não nos deixaram passar a fronteira. Tiveram de nos arranjar quartos à pressa para passar a noite. Eu e o Zezinho fomos os últimos a ir, já às quatro da manhã, para um hostal. No autocarro ficou a claque que nos acompanhava: Vapores do Rego, um grupo de entusiastas brasileiros.»

Na manhã de 26 de abril, João Rocha conseguiu falar com o General Spínola e o Sporting recebeu autorização para entrar em Portugal.

«Olhe, ainda ajudámos o Mário Coelho, um matador de touros português que precisava de ir buscar material para um evento em Espanha. Meteu-se no carro, colou-se à comitiva e lá entrou atrás de nós.»

Os leões de Mário Lino receberam o Belenenses no dia 27. Eram os oitavos-de-final da Taça de Portugal, os primeiros jogos após a Revolução. João Cardoso representava a equipa do Restelo e não esquece esse duelo.

«Eu estava na tropa em Campolide. Lembro-me que, na manhã de 25, a minha esposa foi comprar pão e voltou apressada a contar-me a notícia. Ainda fui treinar de manhã e depois fui para o quartel, a minha esposa levou-me algumas coisas mas acabei por só passar uma noite, já que tinha o jogo com o Sporting e consegui dispensa. Foi um jogo interessante, em ambiente de festa, mas infelizmente o Belenenses perdeu (2-1).»

Intercetado na Ponte da Arrábida por uma brigada popular

O Boavista também seguiu em frente na Taça. A 28 de abril, goleou o modesto Famalicão por 5-1. A Revolução dos Cravos poderia comprometer a realização do encontro mas Valentim Loureiro não estava preocupado.
Acácio Casimiro explica.

«Tenho várias memórias desses dias. Lembro-me por exemplo de ser intercetado na Ponte da Arrábida por uma brigada popular, até uma peixeira estava no grupo. Eu tinha sido militar, saí em outubro de 1973, e lá expliquei que era jogador, que ia a caminho do Bessa para entramos em estágio. Não sabíamos se o jogo se ia realizar mas Valentim Loureiro garantiu logo que sim.»

Valentim Loureiro não era presidente do Boavista nem sequer Major. Mas cumpriu a sua promessa.

«Penso que era capitão nessa altura e, no Boavista, era chefe do departamento de futebol. A equipa foi para estágio em Miramar com José Maria Pedroto (ndr. que chegara ao Boavista em janeiro) e Valentim Loureiro falou com Otelo Saraiva de Carvalho, com quem tinha estudado nos Pupilos do Exército. No dia do jogo, a duas horas do apito inicial, lá apareceram militares para garantir o policiamento e houve futebol. Estava muita gente no Bessa.

(Imagem: Acácio Casimiro no Boavista)


Bissau no mapa da Taça de Portugal

Nessa eliminatória da prova rainha do futebol português, o Benfica goleou o Oriental por 8-0.
António Simões, antiga glória dos encarnados, garante que a preparação não foi afetada.

«Connosco decorreu tudo com normalidade. Claro que havia militares e muitas pessoas nas ruas, mas até treinámos na manhã no dia 25..

Amílcar Fonseca estava do outro lado e acrescenta um pormenor curioso à história. Aquele Benfica-Oriental seguiu-se a uma deslocação da sua equipa à Guiné-Bissau.

«Naquela altura, as melhores equipas de África entravam na Taça de Portugal. Não me lembro desse jogo com o Benfica mas lembro-me bem de, na eliminatória anterior, termos ido a casa do Sporting de Bissau, à Guiné, e vencermos com dificuldades (0-1)»

A CUF também seguiu em frente na Taça, vencendo o Beira Mar (2-0) nos oitavos-de-final, mas a memória de Conhé leva-o – igualmente – para a eliminatória anterior e um adversário de outro continente.

«Nos 16avos-de-final da Taça a CUF ganhou ao Moxico de Angola (3-0), equipa onde estavam o Seninho e o Chico Gordo.»

Seninho e Chico Gordo tinham sido destacados para a Guerra do Ultramar, tal como outros jogadores dessa época. Uma realidade para abordar em outro artigo desta reportagem, como queixas vincadas de um ex-atleta do FC Porto. 

(Imagem: Amílcar Fonseca, antigo jogador do Oriental)
 

Os cravos em Olhão e os excessos de liberdade no Jamor

A bola continuou a rolar. Sempre. O campeonato nacional voltou no primeiro fim-de-semana de Maio e o Benfica garantiu uma histórica goleada em Olhão: 1-7. O jogo começou da melhor forma e terminou em confusão. Conta Artur Amaral Reis, que estava na formação algarvia.

«O Olhanense recebeu o Benfica na Padinha, um campo que estava sempre cheio, e os jogadores das duas equipas andaram a distribuir cravos antes do apito inicial. Depois, foi um jogo complicado, com o público exaltado e gerou-se uma confusão no final. Tanto que acabei por dizer ao Toni para sair do estádio numa carrinha nossa, os adeptos queriam bater-lhe».

Seriam excessos de liberdade? O maior reflexo dessa nova realidade chegou no final da temporada, quando o Sporting campeão enfrentou o Benfica na final da Taça de Portugal. Os leões venceram por 2-1 após prolongamento e conquistaram a dobradinha.

As forças de autoridade não conseguiram travar o povo e este aproximou-se das linhas laterais. No final, o caos generalizado e uma famosa tirada de António Simões, que não acompanhou Vítor Damas na subida à Tribuna do Estádio Nacional. Isto é capaz de ser liberdade a mais.» Quarenta anos depois, Simões mantém um discurso forte.

Quer saber mais? Leia os outros artigos desta reportagem especial do TVI 24/ Maisfutebol.
 
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