«O profissionalismo no futebol português não era vincado, era um profissionalismo de miséria. Eusébio e Coluna são os maiores exemplos. E esses eram mesmo profissionais. Nos clubes da Margem Sul, os treinos eram ao final da tarde porque muitos trabalhavam para sobreviver.» 

José Rachão (Montijo) traça um cenário negro em torno dos jogadores de futebol em 1974. 40 anos após a Revolução dos Cravos, um elemento de cada equipa que disputava a I Divisão transmite ao Maisfutebol as suas memórias e há vários pontos em comum. O mais vincado tem a ver com a famigerada Lei de Opção.

Os clubes podiam segurar os jogadores – mesmo após o final dos contratos – oferecendo apenas 60 por cento do salário proposto por outro emblema. Ou seja, a liberdade era uma utopia, mesmo no panorama futebolístico.

António Simões (Benfica) foi um dos primeiros a lutar pela mudança. O fim da Lei de Opção era uma das batalhas, mas havia outras à vista. O 25 de abril de 1974 precipitou o final feliz.

«O 25 de abril acaba por legitimar a luta que o Sindicato de Jogadores estava a travar. A questão não se limitava à Lei de Opção, era mais abrangente. Tinha a ver com o reconhecimento da profissional, do profissional de futebol.»

O Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol foi constituído - oficialmente - em 1972 e a primeira comissão diretiva tinha nomes como Artur Jorge, Eusébio, António Simões, Fernando Peres, Rolando, Manuel Pedro Gomes e João Barnabé.

Clubes a ficar com o dinheiro da Segurança Social

Outra preocupação dos jogadores de futebol naquela segunda metade da década de 70 estava relacionada com os descontos para a Segurança Social. De novo, as memórias de António Simões.

«Os jogadores pagavam um imposto especial, descontavam 2% para o fundo de desemprego mas entretanto percebemos que havia um grande problema: os clubes não andavam a entregar os nossos descontos à Segurança Social.»

Isto não acontecia apenas em clubes grandes ou pequenos, no Benfica, no FC Porto ou no Montijo. Era uma prática comum e generalizada. João Esteves (Leixões), um eterno Bebé do Mar, não esquece.

«Só tivemos direito à Segurança Social a partir de 1976, mais coisa menos coisa. O 25 de abril deu-nos mais força para fazer reivindicações e lutarmos por aquilo que era justo para nós.»

(Imagem: João Esteves no Leixões) 


Esta realidade fez com que vários jogadores enfrentassem o futuro de uma reforma baixa, em nada condizente com os ganhos acumulados ao longo da carreira.

Lemos (FC Porto) recorda a forma como descobriu esse estratagema.

«A minha irmã trabalhava na Segurança Social e certo dia pedi-lhe para ver como estava a minha situação. Foi quando percebi que não tinha lá nada! Para os jogadores de futebol, o 25 de abril foi a melhor coisa que podia ter acontecido.»

Futebol como 2º emprego para garantir o futuro

Nessa altura, os jogadores dos maiores clubes não ganhavam fortunas e os outros ainda menos. A solução passava por um emprego, atirando os treinos para o final da tarde.

Em vários emblemas do menor dimensão, o principal aliciante eram os cargos oferecidos para abrir uma nova perspetiva de carreira.

Manuel Abrantes assinou pelo Barreirense em 1972. Saiu do Benfica numa troca de guarda-redes com Manuel Bento. Atravessou a ponte e tinha à sua espera um emprego na Câmara Municipal.

«Era importante para o meu futuro mas tornou-se mais difícil após o 25 de abril, porque queriam acabar com essas situações. Em 1975, assinei pelo Sp. Espinho mas tive de continuar a trabalhar na Câmara do Barreiro. Era o sub-chefe do departamento de águas e saneamento, tinha de gerir uma equipa de 22/23 pessoas.»

O trabalho era a garantia de futuro. Manuel Abrantes nunca abdicou dessa política.

«Em 1978, fui para o Estoril porque me prometeram um emprego no Casino. O Fernando Santos (ndr. atual selecionador da Grécia) também tinha um bom emprego, trabalhava no Hotel Palácio lá no Estoril. O que é certo é que esse foi o meu futuro. Era duro, trabalhava no casino até às 4 e meia da manhã e ia treinar poucas horas depois, mas valeu a pena. Fiquei no casino até me reformar de vez. Se não fosse isso…»

(Imagem: Manuel Abrantes no Barreirense)


Amílcar Fonseca, por outro lado, era serralheiro/soldador. Eis a história de um filho do Oriental, na primeira pessoa.

«Nasci no Oriental, o meu tio era sapateiro e roupeiro do clube e eu já andava por lá desde muito novo. Ainda como júnior, estava na bancada para festejar a subida à I Divisão e depois fiz a minha estreia. Só que ganhava pouco. O jogador mais bem pago do plantel (Zeca) ganhava 15 contos e eu apenas 1,5. Por fora, era serralheiro/soldador. Só comecei a ganhar dinheiro com o futebol após o 25 de abril.»

Voltemos à Margem Sul do Rio Tejo. Naquela I Divisão de 1973/74 havia um clube especial, um destino apetecível para vários nomes consagrados dessa altura: a CUF, Companhia União Fabril do Barreiro. Conhé foi dos poucos a derramar suor nas linhas de produção.

«Sou filho de antigos operários da CUF e eu e a minha irmã nascemos lá, no Posto Médico. Aos 18 anos entrei como operário na CUF. Mas a verdade é que outros vieram para o clube para serem empregados, não para trabalhar. Davam o nome, picavam o ponto mas no fundo eram profissionais de futebol. Ganhavam dos dois lados e se calhar ganhavam tanto ou mais que os jogadores de Benfica e Sporting.»

(Imagem: a CUF no tempo de Conhé)


A debandada com o final da Lei de Opção 

O fim da Lei de Opção permitiu aos jogadores lutar por um futuro melhor. Passaram a assinar contratos mais rentáveis, a melhorar condições e a encararem o futuro com outro entusiasmo.

Entre os 16 ex-jogadores que falaram com o Maisfutebol, quase todos apresentam uma história relacionada com este tema.

Aqui ficam os testemunhos sem filtros, livres, como os profissionais de futebol passaram a ser depois do 25 de abril de 1974.

Carlos Cardoso (V. Setúbal): «A Lei de Opção só tinha um lado positivo, que era o de permitir aos treinadores manter os mesmos jogadores durante cinco ou seis anos, ao contrário do que acontece agora. Um jogador estava ligado ao clube ‘ad eternum’, desde que o clube quisesse.»

João Esteves (Leixões): «Para mim não mudou muito porque o Leixões nunca me deixou sair, era o único que não podia sair. Isso só aconteceu mais tarde porque me desentendi com o presidente. Mas lá voltei e aqui estou até hoje.»

António Simões (Benfica): «Eu acabei por sair em 1975 mas não diria que foi pelo fim da Lei de Opção. Se tivesse 25 anos, não sairia. Fui para os Estados Unidos porque já tinha alguma idade. Logo depois foi o Eusébio, o Humberto para França, etc.»

João Cardoso (Belenenses): «O fim da Lei de Opção deu-nos liberdade. Acabei por sair em 1977 para o Sp. Braga, após vários anos no Belenenses. Era visto como jogador da casa, com o mal que daí advém, e aproveitei uma boa proposta do Sp. Braga. Fui sempre muito acarinhado e por cá fiquei até hoje.»

Fernando Tomé (Sporting): «Quando a Lei acabou, até deu um pouco de confusão. Choviam propostas e os jogadores chegaram a fazer quatro/cinco acordos ao mesmo tempo. Tanto que tiveram de criar outra lei a dizer que um contrato passava a ser válido logo que entrasse na Federação.»

Romeu Silva (V. Guimarães): «Lembro-me que ganhava 7 contos no Vitória. No final de 1975, assinei pelo Benfica mas nem foi pelo fim da Lei de Opção. Fui para lá ao abrigo da Lei Militar. O treinador era Mário Wilson, o meu pai futebolístico.»

José Rachão (Montijo): «Nessa altura, entre o Montijo e a Académica, para onde saí em 1976, ganhava 5 contos. O fim da Lei de Opção deu-nos mais liberdade mas não era tudo. Era preciso pensar no futuro. Foi isso que comecei a fazer e, com 26 anos, já tinha o curso de Educação Física. Curiosamente, diria que agora estamos a voltar a esse profissionalismo de miséria. Temo que num futuro próximo voltem os jogadores-trabalhadores na Liga, se isto continuar assim.»
 
(Imagem: José Rachão no Montijo)


Amílcar Fonseca (Oriental): «O FC Porto esteve interessado em mim e no Quim Monteiro, antes do final da Lei de Opção, mas o Oriental pediu o que quis e perdi a oportunidade. Só saí em 1975, e aí foi para o Estoril.»

Artur Amaral Reis (Olhanense): «O Almería de Espanha queria-me a mim e ao Ademir. Oferecia 5 mil contos ao Olhanense, mais 500 contos de prémio de assinatura e 45 contos por mês. Era uma oportunidade fantástica mas o Olhanense tinha todo o poder e não deixou. Acabou a Lei de Opção e depois vieram os contratos paralelos. No Boavista, em 1976, os jogadores declaravam 9 contos, o salário mínimo, e recebiam o resto em contratos paralelos.»

Lemos (FC Porto): «Já em 68, era júnior e não aceitei a proposta do FC Porto. Fui para o Boavista mas estava sob controlo do Porto. Acabei por voltar. Entretanto fui para a guerra e, já depois do 25 de abril, fiz mais uma época no FC Porto e saí para o Sp. Espinho. O Porto ofereceu-me pouco, fui para Espinho ganhar muito mais do que eu tinha pedido. O treinador Branko Stankovic queria-me, o Fernando Gomes e o António Oliveira foram a minha casa e o Porto tentou igualar a proposta mais tarde, mas eu já estava comprometido.»
 
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