A bola não parou de rolar durante a Revolução dos Cravos mas os jogadores de futebol viveram de forma diferente o 25 de abril de 1974. O serviço militar obrigatório deixou marcas em vários dos ex-atletas entrevistados pelo TVI24/ Maisfutebol.

José Rachão, por exemplo, teve um despertar violento na manhã do dia 25. Na altura, representava o Montijo e era furriel na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas.

«No dia 24, fui chamado pelo comandante e avisado de que não deveria sair do quartel, sem me explicar os motivos. A verdade é que me pirei para ir treinar e dormi na residencial onde morava. Só me lembro de ser acordado pelo dono da residencial, às cinco da manhã, dizendo-me que tinha de me apresentar imediatamente.»

Atual treinador do Al-Shabab (Kuwait), Rachão recorda a incerteza que pairava no ar.

«Arranquei à pressa, sem saber o que se passava, e cheguei ao quartel, onde fui recebido com metralhadoras. Lá me deram uma e enviaram-me de imediato para o Cristo-Rei, onde estavam canhões apontados para o rio e para Lisboa! Só os oficiais sabiam ao certo o que se passava, entre nós havia nervosismo e ansiedade. Felizmente não se ouviu um tiro.»

Seguiram-se longos dias em regime de clausura na Escola Prática de Artilharia. Quando saiu, tudo mudara.

«Costumo brincar e dizer que nem me apercebi do que foi o 25 de abril. A brincar, claro. Como brinco com os meus amigos árabes, dizendo-lhes que deviam seguir o nosso exemplo: conseguimos fazer uma revolução em Portugal sem disparar tiros.»

(Imagem: José Rachão e a EPA de Vendas Novas)


 
A Câmara do Barreiro fechada e José Freixo no edifício da PIDE

João Cardoso estava na tropa em Campolide, passou uma noite no quartel mas foi dispensado para ajudar o seu Belenenses no encontro da Taça de Portugal frente ao Sporting. Manuel Abrantes, jogador do Barreirense e funcionário da Câmara, lembra-se de ver o edifício fechado no dia 25, antes das mudanças.

José Freixo, por outro lado, estava de baixa quando a Revolução saiu à rua. Tudo por causa de um duelo com Nené, num Benfica-Académica a 21 de abril (5-0).

«Eu estava na tropa, em Coimbra, mas no dia 21 fomos jogar à Luz e, ao fazer um carrinho sobre o Nené, magoei-me a sério: fiz um buraco no joelho. Ou seja, meti baixa no dia 22 e estava em casa quando tudo aconteceu. O meu grupo tomou conta do edifício da PIDE em Coimbra, houve alguns problemas, mas quando eu voltei já estava tudo calmo.»

(Imagem: José Freixo na Académica)



Manuel Fernandes, um comando à força a caminho de África

Abre-se espaço para o lado mais cruel. Os clubes exerciam a sua influência e os próprios jogadores procuravam formas de escapar aos desígnios indesejados.

José Freixo (Académica) lembra-se de usar o dinheiro do futebol para pagar a colegas e trocar serviços. Acácio Casimiro (Boavista) chegou a ser mobilizado para Angola – em 1972, quando estava no Sp. Espinho – mas trocou com outra pessoa mediante uma compensação financeira. Nem todos tiveram a mesma sorte.

Manuel Fernandes Domingues, conhecido no mundo do futebol como
Manuel Fernandes, viu a sua carreira no Farense ser interrompida por uma recruta que o levaria até Angola, sem aviso prévio.

«Estava na seleção de esperanças, falava-se no Sporting…É verdade que tudo mudou com o serviço militar. Tentei ficar colocado em Tavira mas mandaram-me para as Caldas da Raínha. Entrei na tropa a 23 de abril e estávamos na recruta quando a Revolução aconteceu. Durante uma semana, não nos disseram nada sobre o assunto. Só nos fomos apercebendo aos poucos.»

O pior viria depois. Manuel Fernandes cumpriu a recruta e pouco jogou no Farense, já que preferia matar saudades da família aos fins-de-semana. De repente, uma decisão estranha.

«Fui 'selecionado' para o curso de comandos. Eu que nunca quis ser comando na vida! Selecionaram-me, lá tirei o curso e estava na Amadora quando, de repente, dizem-me que vou ser enviado no dia seguinte para Angola. Ainda liguei para o Farense mas nada havia a fazer. Se calhar houve excesso de confiança, do clube e meu. Nunca imaginei aquilo, ir para Angola depois do 25 de abril.»

Manuel Fernandes tinha 21 anos.

«Fiquei em Luanda durante cerca de um ano, até à independência. Ainda fiz alguns jogos no FC Luanda, filial do FC Porto, mas o campeonato acabou por parar, não havia condições de segurança. De resto, foi um ano mau, havia guerrilhas por todo o lado e lembro-me de ter estado debaixo de fogo várias vezes. Enfim, ficou a experiência.»

O extremo regressou em outubro de 1975. Voltou a vestir a camisola do Farense, seguindo-se Estoril, Portimonense, Amora, Juventude e Lusitano de Évora, cidade onde vive atualmente.

(Imagem: Manuel Fernandes no Farense)


Lemos: os quatro golos ao Benfica e pesadelo na Guiné

António Lemos , aquele Lemos dos quatro golos ao Benfica em 1971, foi outra lança portuguesa em África. O avançado do FC Porto chegou antes do 25 de abril e não tem dúvidas: esse tempo mudou a sua carreira e a sua vida.

«Era titular do FC Porto desde 1970 e, sinceramente, pensei que tinha feito o suficiente no futebol português para não me acontecer aquilo. Era o pior que me podiam fazer. A verdade é que foi pesado para mim, em termos físicos e mentais. Ainda voltei ao FC Porto mas só joguei no clube mais uma temporada.»

Lemos considera que houve tratamento desigual nessa fase.

«Apanhei um comandante que não gostava de mim, se calhar foi por isso, mas a verdade é que por volta da mesma altura foram para Angola o Seninho e o Chico Gordo e eu acabei na Guiné-Bissau. Não me recordo de ter acontecido o mesmo a jogadores do Benfica ou do Sporting…»

O avançado tinha adiado o serviço militar obrigatório mas não conseguiu escapar ao seu destino. Ficou em Bissau entre maio de 1973 e abril de 1974.

«A Guiné estava a ferro e fogo e cheguei a andar no mato, passei momentos complicados. Depois o FC Porto lá conseguiu que eu fosse para a capital e ainda joguei na UDIB, a União Desportiva Internacional de Bissau. Por lá fiquei até à Revolução, até acordar certo dia e ouvir um grande alvoroço. Quando soube do 25 de abril, fiquei deliciado. O meu tempo ali estava a acabar. Finalmente!»

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