Datas marcantes como a do 11-S não acontecem muitas vezes nas nossas vidas. Os acontecimentos são marcantes quando quebram a rotina do quotidiano e o 11 de Setembro de 2001 foi-o também em Portugal. A quebra da rotina deu-se com o interromper das emissões televisivas e o repetir ad nauseum das imagens do embate dos aviões comerciais nas torres gémeas do World Trade Center em Nova York.

Cada um dos portugueses que viveu o terror do ataque às torres gémeas através da televisão lembra-se dessas imagens e quem não as viveu, no direto televisivo, lembra-se de onde e o que estava a fazer a 11 de Setembro de 2001. Essa data não foi apenas a do ataque com aviões em Nova York e ao Pentágono em Washington, foi a partir desse momento que nomes como Osama Bin Laden ou Al-Qaeda se tornaram parte do nosso quotidiano e que a Grande Guerra do Médio Oriente passou a fazer parte das nossas notícias. A guerra da Síria que, apesar do acordo entre EUA e Rússia, parece hoje eterna, começou em Setembro de 2001 e continuou depois com o ataque ao Afeganistão dos Talibãs, posteriormente no Iraque de Saddam Hussein, para por fim chegar até ao país governado por Assad.

Hoje a guerra da Síria e o terror estão também aqui junto a nós, na Europa, com os ataques do Estado Islâmico e a chegada de refugiados dessas três guerras que procuram refazer a sua vida no nosso continente.

O 11 de Setembro faz parte da nossa memória individual mas está ainda vivo na memória jornalística ou é, agora, parte esquecida da História? Para responder a esta pergunta o Barómetro de Notícias do ISCTE-IUL analisou nos últimos quatro anos (2012-2015) as notícias em destaque na semana de 11 de Setembro e pode-se concluir que a data, em Portugal, deixou de ter significado público nos últimos anos.

No entanto, a herança do terror do 11 de Setembro esteve sempre presente nos últimos três anos na segunda semana desse mês. Em 2015 as notícias sobre os refugiados das guerras do médio oriente e norte de África foram o segundo tema da semana. No ano de 2014, na mesma semana, o Estado Islâmico foi o quarto tema mais noticiado e em 2013 a Guerra na Síria foi o tema número um da atenção jornalística em Portugal. 

O ataque às torres gémeas faz hoje parte do passado, podendo ser revisitado nos canais de história e documentários ou nos filmes sobre os acontecimentos desse dia e da posterior morte de Bin Laden. O terror iniciado por Osama Bin Laden tornou-se entretanto num terror do quotidiano. O terror contemporâneo é produto da radicalização individual de quem já não precisa viajar até aos campos do Afeganistão ou Síria (porque lê, ouve e vê através da Internet a propaganda do Daesh), que atenta contra os seus vizinhos, conseguindo-o por vezes, como em Nice, ou falhando, in-extremis, como nesta semana em Paris na tentativa de três mulheres com um carro, botijas de gás e gasolina.

Década e meia passada, somos todos filhos e filhas do 11 de Setembro, pois o mundo da crise institucional da União Europeia, da crise dos refugiados, dos atentados nas cidades europeias, do medo face ao “outro”, dos populismos e da descrença nas lideranças políticas têm também origem nesse dia de há 15 anos.

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.