Saiu de Portugal em janeiro de 2011 para fugir de um país que «já não aguentava». Deixou o «sonho de ser jornalista», que perseguia desde os seis anos de idade, e voou até à Austrália sozinha, deixando na terra natal pais, marido e amigos. Lá, trabalhou como empregada de mesa para pagar o mestrado em Internacional Business. Há dois meses regressou a Lisboa com dois projetos na manga: criar uma empresa de consultadoria de web marketing e doutorar-se em Media Digital.

«Saí porque estava farta de Portugal. Ao fim de mais de dez anos anos a trabalhar como jornalista vi-me confrontada com o desemprego e pensei: Está na hora de mudar. Decidi mudar de profissão, apostar na formação», conta Helena Santos, 33 anos, confessando: «Na verdade, senti que o país me escorraçava e saí muito injustiçada e revoltada».

Na Austrália, encontrou um país mais avançado e organizado e, por isso, classifica a experiência de «muito enriquecedora». De regresso, «porque um visto de permanência é cada vez mais difícil de obter», Helena voltou mais confiante, mas para um país que, entretanto, ficou ainda mais negro.

«Quando cheguei foi um choque tremendo. Indescritível. As pessoas estão com medo. E o medo é a primeira barreira para fazer o que quer que seja».

Por isso, e porque está decidida a ficar em Portugal - «é aqui que está a minha vida, a minha família, o meu país» - Helena Santos tenta proteger-se da depressão coletiva: «Tento não ter conversas negativas e não ver notícias, não consumir este pessimismo real».

Para se motivar num momento em que futuro é muito incerto, Helena planta as sementes que espera ver crescer: a sua empresa, a E-Jump, criada há apenas um mês, e o doutoramento na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Quanto ao jornalismo, sonho de criança e que perseguiu durante anos - fez uma licenciatura e pós-graduação em Ciências da Comunicação e trabalhou mais de dez anos em redações em Portugal - ficou no passado.

«Depois de quase dois anos numa empresa, onde eu trabalhava 14, 15, 16 horas às vezes, sem remuneração extra e depois, por uma questão de cortes que até vieram de fora, vi-me confrontada com o desemprego, posso dizer que não me arrependo nada. Era um sonho, sim, sempre quis ser jornalista. E fui-o. E descobri que era um sonho que não me pagava as contas e não me dava de comer».

Mas o novo «sonho» de ser empresária de sucesso em Portugal também não é nada fácil. «Criar uma empresa neste país é um pesadelo. Vinha cheia de ideias e projetos» que embateram contra burocracia, falta de informação e de apoio. «O Estado diz vamos criar esta medida que apoia o empreendedorismo, mas na verdade não apoia nada».

Certo é que, agora, Helena já não tem «medo de voltar a sair do país». «Não sei se aguento ficar quatro anos [o tempo do doutoramento] nesta depressão», confessou, concluindo: «Se daqui a três, quatro anos, isto não melhorar volto a sair».

Muito crítica quanto ao estado atual da economia - «este Orçamento do Estado não me parece nada benéfico, estão a cortar em coisas que não deveriam ser cortadas» - Helena Santos consegue, mesmo assim, ver «o lado positivo da crise».

«As pessoas estão mais solidárias» e «finalmente, estão a criar hábitos de poupança».